TEXTO POR MARIA MANUELA RESTIVO
FOTOGRAFIA POR A RECOLETORA
DESENHOS POR ABEL MOTA ↗︎, ESPECIALMENTE CRIADOS PARA ESTE PROJETO
07.10.2026
“Se queres aprender a rezar, entra no mar”.
Para quem está envolvido em qualquer tipo de atividade marítima ou agro-marítima, o mar não é unicamente um lugar de lazer ou contemplação: é sobretudo um modo de ganhar a vida. Viver do mar e com o mar implica adquirir um conjunto de saberes práticos que só a experiência é capaz de consolidar: acompanhar as marés, mapear rochas e reentrâncias, reconhecer agueiros por onde a água retorna, identificar os momentos em que se deve entrar e em que é imprescindível sair, sob pena de lá se ficar retido para sempre.
O mar é descrito como ladrão, traiçoeiro, poderoso, falso, um lugar “que nos traz alegrias, mas também é razão de muitas mágoas”. Esta perceção ambivalente atravessa quase todos os relatos dos antigos sargaceiros. A admiração pelo mar e o orgulho de nele trabalhar convivem com a revolta perante a sua imprevisibilidade e os muitos danos que causou.
O antigo sargaceiro Manuel Vicente (1948), de Carreço, revelou-nos a sua paixão pelo mar, mas também a consciência de que é preciso saber que:
«Nós não mandamos no mar. Ele não nos conhece. Nem poupa pequenos, nem pequeninos, nem grandes, nem velhos. Ele leva tudo. E quando não os quer, bota-os para a praia.»
MANUEL VICENTE • EX-SARGACEIRO • Nasc. 1978
Carreço
“O mar levou-o”, ouvimos com frequência enquanto conversamos com os sargaceiros e as sargaceiras do distrito de Viana do Castelo. Os relatos causam-nos espanto e assombro, e no entanto, não conseguimos deixar de perguntar pelas histórias do mar. Quem vive na costa conhece sempre alguém que ficou no mar, o que faz com que os acidentes ligados ao mar sejam, para as pessoas que por eles passaram, relatados com uma certa normalidade.
Julieta Peres (1950), de Moledo, recorda aquele dia em que iam a caminho da Ínsua para apanhar sargaço. Eram cerca de 12 pessoas numa barca que virou, quase à chegada da ilha. “Nunca mais vou ver a minha mãe”, foi o pensamento que na altura lhe acorreu. Felizmente sabia nadar, e lá se ajudaram mutuamente para chegar a terra. Não houve mortes nesta história. O mesmo não se pode dizer do relato de Maria de Castro Gonçalves, que perdeu o irmão no barco apropriadamente batizado de Arrogante ¹.


«Morreram lá, na água. As duas. Elas viram sargaço e foram com a rede encher, e o mar tomou conta delas. Levou-as para baixo e botou-as para cima já mortas. Mas nós já nem medo tínhamos; a miséria até nos tirava o medo.»
EMÍLIA PITA • EX-SARGACEIRA • Nasc. 1948
Amorosa

«Um homem que estava na praia viu que eu andava à deriva, pediu um barco a uma mulherzinha para me ir dar um chicote!»
MANUEL BAETA • EX-JANGADEIRO • Nasc. 1950
Castelo do Neiva

«Aquilo era um trabalho muito escravo... e perigoso. E com as ganchas safamos alguém que caiu ao mar. Era o meu irmão, que foi ao banho e fugiu-nos, foi lá para baixo.»
HELENA CAPELA • EX-SARGACEIRA • Nasc. 1949
Vila Praia de Âncora

«Veio uma onda de mar (...) e levou-me! E elas deram-me as redes. Amarra-te, Natália! E eu amarrei-me e elas puxaram-me.»
NATÁLIA XXXX • EX-SARGACEIRA • Nasc. 19XX
Castelo do Neiva
A sargaceira Natália, de Castelo de Neiva, conta-nos que estava um dia a tirar sargaço quando veio uma onda grande que a levou. Foi salva pelas restantes sargaceiras que estavam na praia, que engataram as redes umas nas outras para conseguirem resgatá-la. Apesar de uma vida passada no mar, Natália nunca aprendeu a nadar, situação comum entre vários sargaceiros e até pescadores. Um dos relatos mais perturbadores foi-nos contado por esta sargaceira, a propósito do marido de sua prima, que foi levado pelo mar. Durante vários dias, as sargaceiras recearam voltar à praia, não tanto pelo mar revolto que o levou, mas pelo risco de encontrar o corpo devolvido. E também aqui o mar é velhaco: só alguns dos corpos são regressam, os outros nunca são encontrados. Pior que morrer no mar, é morrer nele sem nunca ser devolvido à terra, deixando a família suspensa num luto por concretizar.