BOCA DE SAL — Arquivo Expandido
O Boca de Sal é um projeto transdisciplinar, enraizado no litoral atlântico de Viana do Castelo, que explora o património biocultural das comunidades ligadas ao sargaço. É transdisciplinar porque cruza prática artística, criação gastronómica, conhecimento científico, saberes locais e experiência vivida, criando pontes entre diferentes áreas e formas de conhecimento. É biocultural porque se interessa pelas interações entre a biodiversidade e a cultura de um território.¹
No centro do Boca de Sal está um arquivo expandido que funciona como uma ferramenta situada e comunitária. É situada porque parte de um local específico, Viana do Castelo, e dos conhecimentos, memórias e relações que nele se construíram à volta do sargaço. É comunitária porque é desenvolvida a partir do encontro e da colaboração com as pessoas que vivem, trabalham e conhecem esse território. Reunindo histórias, receitas, técnicas, algas, vozes, rituais e objetos, o arquivo não é apenas um espaço de preservação e documentação, mas também de investigação, experimentação, ficção e ressignificação.
O Boca de Sal é desenvolvido através de um trabalho de campo continuado e de processos de colaboração e autoria partilhada.
Pensado como um recurso aberto e em permanente evolução, o arquivo quer ser nómada e deslocar-se para outros territórios. Convida municípios, educadores, instituições culturais, investigadores e comunidades costeiras a contribuir para o seu crescimento e a ativá-lo connosco através de novas ficções, intervenções artísticas e programas pedagógicos, como exposições, performances, workshops, conversas e refeições, partindo das especificidades naturais de cada território e das pessoas que o habitam.
Mais do que documentar um património, o Boca de Sal procura compreender e ativar as relações que o mantêm vivo, abrindo espaço para novas leituras, usos e possibilidades que permitam atuar no presente e ensaiar outros futuros.
¹ Património biocultural é a ideia de que natureza e cultura não são coisas separadas, mas partes de um mesmo sistema de relações. Ao longo do tempo, as comunidades constroem formas de vida em estreita relação com os territórios que habitam, enquanto esses territórios, os seus ecossistemas e as suas espécies influenciam os seus conhecimentos, práticas, línguas, artes, memórias, tradições e modos de vida.

PROCESSO E CRIAÇÃO
No Boca de Sal, entendemos a tecnologia vernacular como uma atitude perante o fazer. Uma atitude baseada na autonomia, no sentido prático e na capacidade de resolver problemas a partir das necessidades concretas, dos materiais disponíveis e da experiência acumulada. É uma forma de conhecimento que se aprende fazendo, através da observação, da tentativa e erro, da adaptação, da reparação e da transmissão. Em vez de tratar a tecnologia como um produto acabado ou uma solução exterior, interessa-nos entendê-la como uma ferramenta ao serviço de um propósito específico. Trouxemos esta atitude para a própria construção do projeto.
A cultura sargaceira é também uma cultura tecnológica. Saber onde, quando e como apanhar o sargaço, reconhecer as espécies, construir e adaptar ferramentas, transportar, secar, armazenar ou utilizar o sargaço no campo como adubo implica um conhecimento técnico construído ao longo do tempo e profundamente ligado ao território. É uma tecnologia sem tecnólogos: um conhecimento incorporado nas pessoas, nos gestos, nos objetos e nas relações entre materiais, corpos e ambiente. Não depende necessariamente de um autor, de uma patente ou de um sistema proprietário. É copiado, ajustado, transformado e transmitido. É aqui que a cultura sargaceira se aproxima de uma lógica de open source: o conhecimento circula de forma livre e permanece disponível para ser apropriado, modificado e colocado novamente em uso.
É a partir desta lógica que construímos o Boca de Sal. O projeto desenvolve-se através de um trabalho de campo continuado, cruzando entrevistas — com antigos sargaceiros e familiares, grupos ligados à cultura sargaceira (como o GRECANE e o GECN) e especialistas de diferentes áreas (como a ficologia, biologia marinha, geologia, a agricultura, a gastronomia), com pesquisa bibliográfica, consulta de museus e arquivos e saídas exploratórias. Percorremos diferentes territórios em Viana do Castelo: Castelo do Neiva e Amorosa, a sul do rio Lima; Praia Norte, Praia Ancestral, Carreço e Afife, a norte; as margens do Lima. Mais tarde, estivemos por Vila Praia de Âncora, Moledo e Apúlia. Fotografias, vídeos, áudios, textos, desenhos, documentos e objetos são simultaneamente meios de investigação e materiais para a construção do arquivo.
Para nós, investigar é também fazer. O conhecimento produz-se através da observação, da experimentação, da tentativa e erro, da reconstrução e do contacto direto com as matérias, corpos, ferramentas e territórios. As práticas participativas são igualmente formas de investigação e de criação: caminhadas, workshops, refeições, performances, conversas e experiências permitem cruzar gerações, saberes e públicos e criar situações de colaboração e autoria partilhada.
Trabalhamos também a partir daquilo que não está documentado, daquilo que permanece por explicar e das lacunas entre os vestígios existentes. A ficção pode ser uma forma de investigação: não para preencher artificialmente essas lacunas, mas para permanecer dentro da incerteza, explorar aquilo que ainda não sabemos e continuar a criar história.
Este processo é também uma forma de desarquivar a memória: retirá-la do lugar onde permanece guardada — nas pessoas, nos objetos, nos gestos, nos livros, nos lugares e nos museus — e colocá-la novamente em circulação. O conhecimento não é apenas recolhido e preservado; é posto em prática, transformado e partilhado, para que possa continuar a ser transmitido e ganhar novos sentidos.
Esta forma de trabalhar permite-nos questionar as lógicas dominantes de produção tecnológica e alimentar, baseadas na extração, na produtividade, na aceleração e na dependência de soluções externas. Não se trata de opor a tecnologia vernacular à high tech, mas de questionar uma ideia de inovação que tende a valorizar o novo, a escala e a velocidade, deixando para segundo plano a reparação, a reutilização, a adaptação e a autonomia. Interessa-nos pensar em outras formas de produzir conhecimento e tecnologia, mais próximas dos recursos disponíveis, dos contextos em que surgem e das comunidades que os utilizam.
Não procuramos reproduzir as soluções do passado, mas aprender com a sua lógica: observar o que existe, trabalhar com o que está disponível, adaptar, experimentar e partilhar.
BOCA DE SAL — Arquivo expandido
é uma iniciativa d' A Recoletora↗︎
EQUIPA NUCLEAR
A RECOLETORA é a prática colaborativa, artística e pedagógica do artista visual Alexandre Delmar e da designer Maria Ruivo, dedicada ao estudo dos lugares de reciprocidade e interação entre as comunidades humanas e as vegetais. No seu trabalho, a dupla alia uma ação contínua de pesquisa, inventariação e mapeamento das plantas espontâneas comestíveis e medicinais ao resgate de conhecimentos ancestrais e contemporâneos, numa lógica didática que propõe uma redescoberta da cidade através da recoleção e da deambulação pelos territórios do baldio urbano.
Explora temáticas relacionadas com a autonomia alimentar, a recoleção, o herbalismo, o saber-fazer, a paisagem, a memória e a etnobotânica, promovendo ações participativas como cartografias, caminhadas guiadas, workshops, refeições, conversas, exposições e publicações.
MARIA MANUELA RESTIVO (Gondomar, 1985; Vive em Gondomar e trabalha um pouco por todo o país, principalmenete no Minho) é antropóloga e investigadora. É licenciada em Antropologia pela Universidade de Coimbra, mestre em Museologia pela Universidade do Porto e doutorada em Estudos de Património – História da Arte pela mesma universidade, através de uma bolsa de estudos da FCT (2017-2022). Trabalhou em várias instituições públicas e privadas, como o Palácio da Pena, a galeria Cruzes Canhoto ou o IHRU. Realiza investigação, exposições e publicações em torno das práticas artísticas populares e vernaculares, recorrendo a colaborações frequentes com artistas e designers. É editora dos livros do alhures e do projeto Arte Popular de Ana a Zé. Atualmente é investigadora integrada do CRIA-UMinho no âmbito do programa CEEC (2024-2030).
COLABORADORES
O GECN — Grupo Etnográfico de Castelo do Neiva foi fundado em 2001 e dedica-se à preservação e divulgação das tradições e da cultura de Castelo do Neiva, freguesia litoral situada a sul de Viana do Castelo.
O grupo trabalha sobre as práticas e expressões da comunidade local, muito ligada às atividades agro-marítimas, nomeadamente à pesca, à apanha do sargaço e ao cultivo da terra, através da recolha e apresentação de cantares, danças e trajes de trabalho e de festa.
ELINA STOLDE (Riga, Letónia, 1984; vive em Ermesinde) é chef de cozinha, música e etnomusicóloga. Tem um diploma em Canto de Coro pela Riga Dom Choi School (2005) e em Teoria da Cultura pela Academia de Cultura da Letónia (2006). É licenciada em Etnomusicologia pela Jazeps Vitols Latvian Academy of Music (2011). É chef de cozinha da associação cultural Casa da Horta, onde desenvolve, desde 2011, uma cozinha selvagem, vegan e sem desperdício. Em 2020, fundou em conjunto com a chef Aija Repsa, a Gata da Mata — um laboratório de experimentação colaborativo que promove o uso culinário das plantas espontâneas, através de oficinas de apanha de algas e cogumelos, pão de massa-mãe e fermentação de legumes. Colabora com vários projetos ligados à arte, à ecologia, à cozinha silvestre e à etnobotânica, tais como A Recoletora, Trigo-do-Umbigo, coletivo Urtigas 70, Cartas Solidárias ou Campus Paulo Cunha.
MARÍA ULECIA (Don Benito, Espanha, 1965; vive no Porto) é artista e ceramista. Licenciou-se em Belas Artes (1988) e tem um mestrado em Gestão do Património Cultural (1997), ambos pela Universidad Complutense de Madrid. Aprofundou a sua formação em cerâmica através do contacto com processos tradicionais do barro em Salvatierra de los Barros (oficina da família Guisado) e em ateliers de Lisboa (Sedimento, Caulino e Helena Brízido).
EM 2019, estabelece-se no Porto como ceramista, onde funda o seu atelier e desenvolve um trabalho autoral centrado em temas ligados à botânica. A sua prática cruza cerâmica e têxtil, explorando materiais como porcelana e grés, e inclui tanto a criação de peças como de painéis cerâmicos para integração em arquitetura. Nos seus processos, incorpora elementos do mundo natural — terras, pigmentos e matérias orgânicas — como parte constitutiva das obras. A sua obra está presente em edifícios de várias cidades como Lisboa, Madrid, Antas de Ulla, Hamburgo, Dubái e Montreal. Destaca-se ainda feraeplantaeportum, um projeto pessoal de arte urbana onde retrata a flora espontânea da cidade do Porto em inúmeros painéis de azulejos.
RICARDO CARVALHIDO é licenciado em Biologia e Geologia e doutorado em Ciências, na especialidade de Geologia, pela Universidade do Minho. A sua investigação centra-se na evolução paleoambiental, na geologia e na deformação neotectónica do Litoral Norte de Portugal. Foi investigador de pós-doutoramento no Centro de Geologia da Universidade do Porto e no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro. Foi responsável pelo desenvolvimento do Geoparque Litoral de Viana do Castelo, aspirante à rede mundial de geoparques da UNESCO, e vereador da Câmara Municipal de Viana do Castelo (2017–2021), com os pelouros do Ambiente e Biodiversidade, Ciência, Inovação, Conhecimento e Projetos Educativos. Neste período, coordenou diversos projetos de valorização do património natural e cultural, conservação da natureza e educação científica, incluindo o Parque Ecológico Urbano de Viana do Castelo. Atualmente, é Professor Adjunto Convidado no Instituto Politécnico de Viana do Castelo (ESE), Diretor-Geral da Academia de Formação do Grupo PA e Coordenador Científico do projeto Aspirante Geoparque UNESCO de Viana do Castelo. É ainda investigador colaborador do INED — Centro de Investigação e Inovação em Educação.
MARINA DOLBETH (Espinho, 1978; vive em Viana do Castelo) é bióloga marinha e investigadora no CIIMAR. É doutorada em Biologia, com especialização em Ecologia pela Universidade de Coimbra. Ao longo da sua carreira, tem trabalhado com diversas comunidades biológicas, reunindo conhecimento para melhor compreender as dinâmicas dos ecossistemas estuarinos e costeiros, de forma a auxiliar uma melhor gestão ambiental. Atualmente, foca-se na conservação e restauro de espécies formadoras de habitat, como as ervas e florestas marinhas, explorando o seu papel como soluções naturais para mitigar os impactos de atividades humanas e do clima. Neste âmbito, começou a investigar as comunidades de macroalgas do norte de Portugal, fundamentais tanto a nível ecológico como cultural. Dedica-se à promoção da Literacia dos Oceanos, realizando palestras e atividades educativas. Integra a equipa da Cátedra UNESCO “Ocean Expert”. O seu trabalho científico está publicado internacionalmente em mais de 80 artigos e capítulos de livro.
CRIAÇÃO
A Recoletora
(Alexandre Delmar e Maria Ruivo)
TEXTOS
Maria Manuela Restivo
A Recoletora
FORMADORES E CONSULTORES
María Ulecia
Ricardo Carvalhido
Elina Stolde
Emília Pita
Manuel Vicente
Céu Arezes
Marina Dolbeth
Francisco Arenas
Anabela Arantes
AGRADECIMENTOS
O nosso agradecimento especial a:
Cândido Torres e aos membros do GECN, pela total disponibilidade, pela forma calorosa como nos apresentaram à comunidade sargaceira e por embarcarem nos desafios que lhes fomos propondo.
Antigas sargaceiras, sargaceiros e jangadeiros, por partilharem connosco os seus saberes, as suas dores e tantas histórias — o sumo de que este arquivo se alimenta: Céu Arezes, Natália Dias, Graça e Rosalina Martins da Costa, Manuel Baeta, Emília Pita, Manuel Vicente, Maria Cristina Fontes, Helena Capela e Julieta Peres.
Maria Manuela Restivo, por conseguir não só navegar no nosso caos processual, como também dar espessura de pensamento e corpo textual ao nosso trabalho.
Ricardo Carvalhido, por nos abrir os olhos para as pedras, para a memória mineral e para a riqueza do património geológico de Viana.
Leonor Cruz e a toda a equipa do CMIA, pela disponibilidade e pelo acolhimento com que sempre nos recebem, e por nos proporcionarem o tempo e o espaço para a residência artística no Observatório Litoral Norte, que nos permitiu desenvolver o projeto de forma verdadeiramente imersiva.
Hélder Dias
Hugo Marrafas
María Ulecia
Virginie Meira
Catarina Morais
Elina Stolde
Aurora Rego
Anabela Arantes
Álvaro Campelo
Marina Dolbeth
Francisco Arenas
Patríca Carvalho
Rita Sousa
Isabel Cunha
Raquel Vaz
Pedro Jervell
Daniel Duarte Pereira
Julia Lohmann
Alba Castro
ESE / IPVC
BOCA DE SAL — ARQUIVO EXPANDIDO é um projeto que está a ser desenvolvido em Viana do Castelo, no âmbito da residência artística S+T+ARTS Aqua Motion, como resposta ao desafio "The Shapes of the Sea - Remembered, Reused, Reimagined". Conta com o apoio da
ESE — Escola Superior Educação (Licenciatura de Artes Plásticas e Tecnologias Artísticas), Câmara Municipal de Viana do Castelo e Inova +.
