TEXTO POR MARIA MANUELA RESTIVO
FOTOGRAFIA POR A RECOLETORA
06.10.2026
É sempre importante lembrar que as mulheres viveram em Portugal — e, em certas circunstâncias, continuam a viver — numa condição de subalternidade, seja esta legal, social ou familiar. Até à Constituição de 1976, resultante da Revolução de Abril de 1974, e para citar apenas alguns exemplos, apenas as mulheres letradas podiam votar; para viajarem para fora do país, precisavam de autorização do pai ou do marido e só eram consideradas chefes de família na ausência do homem. Sally Cole sintetizou esta condição numa frase expressiva: as mulheres eram frequentemente apresentadas como “filhas de pais, mulheres de homens e mães de filhos” ¹. Ou seja, sempre identificadas em relação a outrem, normalmente masculino.
Mas a vida quotidiana não é feita unicamente dos constrangimentos ditados pelo poder institucionalizado, ainda que estes pesem, e muito, na limitação de certas liberdades. Alguns estudos têm mostrado como, nas comunidades marítimas, as mulheres concentram um conjunto de poderes estruturais: governam a casa, trabalham dentro e fora dela e, por essa razão, controlam frequentemente o orçamento disponível, através da administração do dinheiro da família. Tal deve-se, em grande medida, ao facto de serem as mulheres a assegurar a venda do peixe capturado pelos maridos e filhos, cujo tempo é passado predominantemente no mar. Esta circunstância conferia às mulheres uma maior autonomia na gestão do orçamento familiar, permitindo-lhes exercer um controlo financeiro mais significativo do que aquele de que dispunham muitas mulheres noutros contextos geográficos e económicos.
A especificidade da vida agro-marítima ao longo de uma parte considerável do século XX reflete-se também numa maior liberdade de movimentos das mulheres. Comparando com mulheres de classes sociais mais altas, mas também com as esposas de lavradores abastados, as mulheres marítimas não estão circunscritas ao espaço doméstico. As múltiplas atividades de que se ocupavam — entre elas a preparação das redes, a apanha do pilado e a recolha do sargaço — implicavam uma circulação frequente fora do espaço doméstico, manifesta sobretudo numa presença prolongada na praia. Para estas mulheres, a praia e o mar podiam constituir espaços simultaneamente associados ao esforço e ao sofrimento, mas também a uma relativa autonomia e liberdade. A relação ambígua com o mar é, aliás, manifestada por várias mulheres com quem conversámos.
1. Cole, S. (1994). Mulheres da praia: O trabalho e a vida numa comunidade costeira portuguesa. Dom Quixote.





A história da apanha do sargaço é também uma história de trabalho feminino. Embora várias fontes indiquem que a atividade foi, ao longo do tempo, exercida tanto por homens como por mulheres — ideia igualmente corroborada pela recolha etnográfica realizada entre antigos sargaceiros e sargaceiras — a participação feminina assumiu particular importância em determinadas regiões. Abel Viana assinalava, para a década de 1970, que “a apanha do sargaço a norte da foz do Lima é feita habitualmente por mulheres, conquanto alguns homens uma vez por outra se ocupem nisso”. Uma observação semelhante é avançada por Aurora Rego para a região de Viana do Castelo, onde, ao longo dos séculos XIX e XX, a emigração masculina e a dedicação dos homens a atividades exercidas fora de casa — como os trabalhos de cantaria e de estuque, particularmente disseminados em Afife — deixavam frequentemente às mulheres a gestão quotidiana da casa e a procura de atividades complementares, entre as quais a apanha do sargaço. Em localidades como Afife ou Montedor, esta parece mesmo ter assumido um caráter predominantemente feminino.
Esta participação, porém, estava longe de ser homogénea ao longo da costa. Como se assinala em Actividades agro-marítimas em Portugal, a norte do rio Cávado as mulheres entravam na água para apanhar sargaço em condições semelhantes às dos homens, enquanto, mais a sul, entre Fão e Apúlia, essa tarefa era desempenhada sobretudo por homens. A diferença refletia-se também nos instrumentos utilizados, nomeadamente nas redes, geralmente de maiores dimensões nesta última região. Mais do que falar, portanto, de uma divisão do trabalho entre homens e mulheres, importa reconhecer configurações locais distintas, nas quais as mulheres podiam assumir um papel central não apenas na recolha do sargaço, mas também na sua preparação, comercialização e na gestão dos rendimentos daí obtidos.










Esse dinheiro era utilizado sobretudo em despesas de subsistência, como a alimentação e a aquisição de outros bens essenciais, uma vez que muitas das mulheres que se dedicavam à apanha do sargaço pertenciam a meios sociais mais desfavorecidos. Ainda assim, os testemunhos recolhidos ao longo da pesquisa mostram que os rendimentos obtidos com o sargaço podiam também ser canalizados para outros fins, como obras na casa, a compra de bens não essenciais ou a aquisição de peças de ouro.
Maria Cristina Fontes (Afife, 1943) recorda que, depois de apanharem sargaço suficiente para vender, a mãe lhes dizia que, a partir desse momento, o rendimento do que recolhessem poderia ficar para elas. Foi com esse dinheiro que conseguiu comprar, ao longo dos anos, algumas peças de ouro, entre as quais uns brincos de Viana, um cordão, um fio e uma pulseira.
«A minha mãe, assim que fazíamos 4 (palheiros), dizia: 'agora tirai para vós'. Caraças, então é que nós tirávamos! O ourinho que eu tenho é todo disso.»






Julieta Peres (Moledo, 1950) conta-nos que, em três dias de apanha do sargaço, conseguiu dinheiro suficiente para comprar uma fieira, que ainda hoje conserva. A conversão de parte dos rendimentos do sargaço em peças de ouro parece, de facto, ter sido uma prática generalizada entre as mulheres. Esta situação é condizente com a importância do ouro na região do Minho, onde assume um papel relevante quer a nível económico, quer a nível simbólico.
«Eu tinha 18 anos e queria um fieira, de ouro. Em três dias, fui lá para a Ínsua e ganhei para uma! A apanhar essas folhas, como que de couve pequeninas, chamavam-lhe crespelho. Um saco dava muito dinheiro.»
Nesta região do norte de Portugal, o ouro assumiu historicamente uma importância que ultrapassava largamente a função ornamental. Era, ao mesmo tempo, adorno pessoal, forma de aforro e parte do dote feminino, funcionando como reserva de valor num contexto em que o acesso a outros mecanismos de poupança era limitado. A quantidade de ouro que uma mulher possuía contribuía para o seu prestígio social e, consequentemente, para a sua valorização enquanto potencial noiva. Certas peças de ouro possuíam também uma função apotropaica. Logo após o nascimento, era frequente furar as orelhas das crianças e colocar-lhes pequenos brincos, entendidos como elementos de proteção, num contexto em que se acreditava que os espíritos malignos podiam penetrar no corpo através das suas cavidades. Era raro ver uma mulher desta região sem brincos. Quando os maridos faleciam, envergavam os denominados “brincos de viúva” ou, em alternativa, cobriam os brincos com um pano preto.
«Eu não comprei. O meu ouro trouxe de casa da minha mãe!»


Ainda hoje, em algumas zonas do Minho, é possível observar mulheres mais velhas a trabalhar no campo com vestuário simples e gasto, mas adornadas com brincos de ouro popular de grandes dimensões. Esta coexistência entre roupa de trabalho e joalharia valiosa contraria a ideia de que o ouro estaria reservado a ocasiões festivas ou a contextos de exibição social. Em muitos casos, quase parece uma extensão do corpo da mulher e da sua identidade.
Esta ligação entre a mulher minhota e o ouro não desapareceu ao longo do tempo; pelo contrário, parece ter sido continuamente reforçada pela crescente valorização dos elementos materiais associados à identidade minhota, como o traje e a ourivesaria. Para esse processo contribuíram de forma significativa os grupos folclóricos disseminados pela região, bem como os próprios municípios, através de iniciativas de promoção e valorização destes referentes identitários.
A “moda do Minho” ², identificada pelo antropólogo António Medeiros nos anos 1990, não só não desapareceu como parece hoje particularmente viva, envolvendo novas gerações na valorização do traje, do ouro e de outros referentes associados à identidade minhota, com particular destaque para as formas de representação e afirmação da identidade feminina.
2. Medeiros, A. (2003). A moda do Minho: Um ensaio antropológico. Edições Colibri.
