TEXTO, FOTOGRAFIA E VÍDEO POR A RECOLETORA
11.09.2026
A jangada é um projeto. Antes de existir como objeto, é preciso imaginar que pode existir. É preciso antecipar uma possibilidade, experimentar, confiar numa intuição — essa capacidade de apreender as situações de uma forma “animal”. Todo o bom projeto guarda qualquer coisa de irracional: uma parte de sonho, de utopia, de audácia. Aquilo que ainda não sabemos se funciona, mas que nos leva a tentar. Talvez devêssemos cultivar aquela curiosidade infantil que nos prendia durante horas numa poça de maré, com um pedaço de madeira a fazer de barco. As crianças estão libertas das funções que determinamos para as coisas: inventam usos, transformam objetos, constroem mundos com aquilo que encontram.
A jangada pode ser muitas coisas ao mesmo tempo: embarcação, abrigo, fuga, salvação, esperança, promessa. Veja-se a jangada do aventureiro, do náufrago, do migrante. Ao longo da história da humanidade, esta coisa modesta e flutuante revelou sempre a nossa capacidade de reação e adaptação. De Ulisses (o herói grego da Odisseia, que naufraga numa ilha e, com aquilo que encontra, constrói uma jangada em quatro dias para regressar a Ítaca) aos jangadeiros de Castelo do Neiva (que milhares de anos depois viram no borriço uma oportunidade para apanhar mais sargaço no mar), a jangada tem sido um engenho de circunstância para partir e chegar onde, de outra forma, não chegaríamos.
Podemos construir a jangada, mas não controlamos o mar. Podemos preparar o percurso, antecipar as adversidades, escolher uma direção. Podemos usar a razão, a experiência, a ciência. Mas há sempre qualquer coisa que escapa: o vento, a corrente, a maré, o acaso. A viagem acontece entre aquilo que conseguimos prever e o imprevisto que encontramos pelo caminho. É por isso que a jangada é, para muitos, uma alegoria da própria vida. Existir é estar em movimento. Adaptarmo-nos ao que aparece, mudar de curso, encontrar recursos onde não esperávamos encontrá-los. Avançar sem nunca controlar inteiramente o rumo.
Muito antes de construirmos jangadas, já estávamos a viajar. Antes de qualquer embarcação, já estávamos sobre uma superfície em movimento. A Terra é a nossa primeira jangada: atravessa o espaço transportando-nos sem que sintamos o seu movimento perpétuo. Parece imóvel porque viajamos com ela; mas estamos todos a flutuar.
Esta ideia de jangada existe para além de nós. No mar, há muitas formas de estar à deriva. Comecemos pelas algas. Algumas passam a vida agarradas às rochas. Outras, no final do seu ciclo, desprendem-se e começam uma outra viagem, como é o caso do taborro (Saccorhiza polyschides) que, ao chegar, a terra vira sargaço. A deriva não é necessariamente o fim da existência. Pode ser apenas uma nova fase. As alfaces-do-mar (Ulva spp.), por exemplo, continuam vivas enquanto flutuam. Transportadas pelo vento e pelas correntes, continuam a crescer, a reproduzir-se e a encontrar novos lugares.
Mas nem tudo aquilo que viaja no mar é feito de matéria viva. Madeira, conchas, boias, cabos, embarcações, pedaços de plástico, objetos perdidos. Coisas que não foram feitas para flutuar podem tornar-se, por acaso, em veículos de transporte. A vida quer vingar e apropria-se daquilo que encontra. Há organismos, como as algas e os moluscos, que se agarram a estas superfícies e deixam-se levar. Apanham boleia para atravessar distâncias que dificilmente percorreriam de outra forma. A wakame (Undaria pinnatifida) é um exemplo extremo dessa forma intrépida de viajar. Originária do noroeste do Pacífico, foi introduzida acidentalmente na costa mediterrânica francesa em 1971, provavelmente num carregamento de sementes de ostra provenientes do Japão, onde é cultivada. A partir daí, encontrou novas costas onde se estabeleceu. Viajar é também isto: transportar aquilo que não sabíamos que levávamos.
A deriva é, por isso, muito mais do que deslocação. É transformação. Aquilo que parte não é necessariamente aquilo que chega. No caminho, muda de relação com o que o rodeia e, por vezes, torna-se outra coisa.

↑ RATIS LAZUL COM MEXILHONES
2019. Ofir, Esposende

↑ RATIS AQUAE CAPUT
Durante muito tempo, as algas foram marginalizadas. Ficaram à margem da nossa atenção, história e alimentação. Pelo menos por estes lados do mundo ocidental, aprendemos a vê-las com algum medo, repulsa ou simplesmente como aquilo que o mar cospe para a praia, por não o querer. Contudo, as grandes florestas de algas marinhas são ecossistemas extraordinariamente ricos e importantes, onde se concentra alimento, abrigo e uma enorme diversidade de vida. Estendem-se ao longo das costas, formando territórios contínuos de abundância.
A hipótese das Kelp Highways, as chamadas “autoestradas das algas”, vem abalar o lugar que lhes atribuímos: segundo esta hipótse, as florestas marinhas costeiras podem ter funcionado como corredores naturais ao longo dos quais os primeiros humanos se deslocaram, encontrando pelo caminho uma extraordinária profusão de peixes, moluscos, crustáceos e algas. Seguir estas florestas significaria, assim, não apenas encontrar um caminho, mas encontrar comida ao longo do caminho.
O litoral deixa então de ser apenas aquilo que separa, a linha entre dois mundos. Passa a ser um território de passagem, de alimento e de possibilidades. A ideia é fascinante porque inverte o lugar que atribuímos às algas. Aquilo que parecia marginal pode, afinal, ter estado sempre no centro. O que durante muito tempo tratámos como matéria menor pode ter feito parte das condições que tornaram possível a dispersão humana para outros continentes, nomeadamente uma das grandes viagens da nossa espécie: a chegada dos primeiros humanos às Américas. Vindos da Ásia, poderiam ter seguido as costas do Pacífico, passando pela região de Beringia e avançando para sul através de uma sucessão de ecossistemas costeiros ricos em biodiversidade.
Talvez o caminho não estivesse apenas junto ao mar. Talvez estivesse dentro dele. Nas florestas de algas que acompanhavam a costa e garantiam o sustento para continuar a avançar.
Foi também aqui, nas algas, que nós começámos. Deixámo-nos flutuar, levados pela corrente; seguimos os fundos rochosos junto à costa, encontrámos seixos, lamas ancestrais, saberes e estratégias. Aprendemos a conhecer as algas, os rochedos e as pessoas pelo nome.
O Boca de Sal é o registo da nossa viagem: uma investigação que começou no encontro entre mar e terra e foi descobrindo, pelo caminho, uma teia de relações entre algas e humanos, entre sargaço e sargaceiros. Uma viagem feita de desvios, improvisos, aventuras e descobertas. Uma deriva que continua.