TEXTO POR MARIA MANUELA RESTIVO + A RECOLETORA
FOTOGRAFIA E VÍDEO POR A RECOLETORA
MAPA PUBLICADO POR CIIMAR ↗︎
02.07.2026
Sargaço ou argaço é o nome comummente usado para designar o conjunto de algas marinhas que arrojam à praia, usadas tradicionalmente como fertilizante agrícola em várias regiões litorais de Portugal. Não se trata, portanto, de uma única espécie de alga, mas de uma mistura natural de diferentes espécies, cuja composição varia de acordo com as características de cada lugar. No sargaço da região norte, predominam as algas castanhas de grandes dimensões.
Mais do que uma mistura de algas, interessa pensar o sargaço como uma condição. São algas que passaram das rochas do mar para a deriva e, finalmente, para a praia. É o estado transitório que faz delas sargaço: uma mudança de lugar, de existência e de possibilidade. Foi nesta passagem que as comunidades costeiras reconheceram nas algas um recurso. O que o mar devolvia à terra podia ser recolhido e incorporado nos campos. Mais tarde, este interesse levou também à apanha nos rochedos junto à costa.


↑ SARGAÇO ARROJADO À PRAIA
2026. Praia do Castelo do Neiva, Viana do Castelo.
Embora o termo sargaço seja hoje o mais corrente em grande parte do país, argaço tende a surgir com maior frequência nos documentos antigos e é também o termo mais utilizado, ainda hoje, pelas populações do distrito de Viana do Castelo. Segundo Cláudio Basto, a palavra argaço deriva de alga, através de algaço. Já F. Krüger considera que sargaço é uma forma mais recente, resultante de uma transformação de argaço sob a influência de outra palavra, provavelmente sal. ¹
Neste contexto, é importante não confundir o sargaço — mistura de diferentes espécies de algas marinhas usada como adubo nos campos — com a espécie de alga exótica de nome científico Sargassum muticum, vulgarmente conhecida por sargaço-japonês. Originária do Oceano Pacífico, esta alga castanha foi detetada pela primeira vez em Portugal no início dos anos 1990, na região norte, e encontra-se atualmente estabelecida ao longo de toda a costa nacional.
A palavra limos é mais comum no sul do país, servindo aí para designar a mesma mistura de algas a que no norte chamam de sargaço. Contudo, no litoral vianense, a população usa limos para se referir às algas verdes do género Ulva, como é o caso da Ulva lactuca e da Ulva rigida, hoje em dia mais conhecidas como alfaces-do-mar.


1. Basto, C. (1910). Falas e Tradições do Distrito de Viana do Castelo. Revista Lusitana, XIII, Lisboa, pp. 84–88;
Krüger, F. (1936). Notas Etnográficas-Linguísticas da Póvoa de Varzim. Boletim de Filologia, IV, 1–2, Lisboa, pp. 119–120.
Ver também Oliveira, Ernesto Veiga de; Galhano, Fernando; Pereira, Benjamim. Actividades Agro-Marítimas em Portugal. Lisboa, 1975, p. 13.
↑ SARGAÇO PARTIDO E À DERIVA
2026. Praia do Castelo do Neiva, Viana do Castelo.
A composição do sargaço não é fixa: varia de lugar para lugar e ao longo do ano. A mistura de algas que o mar deposita nas praias ou que é recolhida manualmente nos rochedos próximos depende das comunidades de algas existentes em cada local e em cada época. A presença e abundância dessas comunidades estão, por sua vez, relacionadas com um conjunto de características específicas de cada zona do litoral, como a tipologia dos fundos, as rochas, a profundidade, a exposição à ondulação, a temperatura da água, entre outras.

↑ MAR COM SARGAÇO
2025. Praia Norte, Viana do Castelo.
Convém não esquecer que, a partir do momento em que uma alga se desprende, já não podemos afirmar com certeza qual foi o seu ponto de origem. Assim, uma alga que encontramos numa determinada praia pode ter sido transportada pelas correntes a partir de outra zona do litoral, vizinha ou distante.
Os mapas ¹ que vemos abaixo são exemplificativos desta variação. Não representam as algas que chegam às praias, mas a distribuição de duas espécies de algas que crescem fixas ao fundo rochoso. Para produzir estes mapas, foram realizados estudos debaixo de água, uma vez que algumas destas algas crescem em zonas que nunca ficam expostas durante a maré baixa.

Desenvolvidos por uma equipa do CIIMAR, os mapas comparam a distribuição de duas espécies de algas castanhas de grande porte, a Laminaria hyperborea [mapa A] e a Saccorhiza polyschides [mapa B], ambas capazes de formar florestas marinhas. A sua distribuição ao longo do litoral não é uniforme: as áreas onde se regista uma maior concentração de ocorrências estão representadas a vermelho, enquanto o verde e o azul indicam ocorrências mais dispersas.
Na região de Caminha e na zona sul da Póvoa de Varzim, por exemplo, encontramos uma maior concentração de Saccorhiza polyschides face a Laminaria hyperborea. Já no litoral de Viana do Castelo, a norte do rio Lima, observa-se o inverso.
É esta diversidade na distribuição das espécies que ajuda a explicar por que razão o sargaço pode assumir composições diferentes mesmo entre lugares relativamente próximos. A mistura que chega a uma determinada praia depende, em parte, das algas que crescem nas rochas das zonas envolventes — mas também, como vimos, do percurso que essas algas fazem depois de se soltarem.
1. Meyer, Hugo; Salas-Leiton, Emilio; Franco, João; Dolbeth M; Babe, Oscar; Chemello, Silvia; Reis, Bianca; Sousa-Pinto, Isabel; Arenas, F. Mapping of subtidal Laminaria hyperborea and Saccorhiza polyschides in Northern Portugal. 2026. https://doi.org/10.15468/d6uv4e ↗︎

↑ SARGAÇO — NO PONTÃO; DETALHE; SOBRE UM CORPO
2026. Praia do Castelo do Neiva, Viana do Castelo.


De um modo geral, o sargaço é constituído por uma mistura de algas castanhas, verdes e vermelhas. Na costa norte de Portugal, incluindo no litoral minhoto, predominam claramente as algas castanhas, seguidas pelas algas verdes e, em quantidades menores, pelas algas vermelhas. Mais para sul, a composição das comunidades de algas muda, com uma presença mais significativa de algas vermelhas.
Entre as algas castanhas que compõem o sargaço do litoral a norte do rio Douro, destaca-se a Saccorhiza polyschides, uma espécie de grande porte, de crescimento rápido e ciclo de vida curto, geralmente anual. Na primavera e durante o verão, desenvolve-se rapidamente nas rochas, atingindo grandes dimensões. No final do seu ciclo, entra em senescência e desprende-se, contribuindo significativamente para a avultada quantidade de biomassa que chega à costa.

↑ TABORRO (SACCORHIZA POLYSCHIDES),
Vista aérea. 2026. Praia do Castelo do Neiva, Viana do Castelo.
Designada entre os sargaceiros do norte por taborro, taborrão ou caroças, a Saccorhiza é facilmente reconhecível pelo seu grande bolbo oco com “verrugas”, através do qual fixa o seu corpo às rochas; pela sua cor castanha e textura semelhante ao couro; pelo seu talo achatado, que se divide em numerosas fitas em forma de chicote; e pelo seu grande comprimento — em apenas um ano, pode atingir cerca de 3 metros.
É principalmente esta alga que justifica a faina dura e morosa do sargaço. A sua renovação anual, a quantidade de biomassa que produz e a sua disponibilidade para ser recolhida, depois de se desprender das rochas e se acumular nas praias, ajudam a explicar a rentabilidade da apanha do sargaço enquanto atividade agrícola e económica.
«É esta alga (Saccorhiza polyschides) que justifica dar o nome de sargaço ao sargaço»
DANIEL DUARTE PEREIRA • ARQUITETO E INVESTIGADOR • Nasc. 1987
Braga

↑ TABORRO (SACCORHIZA POLYSCHIDES)
Vista geral. 2026. Praia Norte, Viana do Castelo.

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Detalhe da base de fixação (bolbo) e das suas "verrugas”.

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Vista da base de fixação (bolbo)
↑ TABORRO (SACCORHIZA POLYSCHIDES).
Vista aquática. 2026. Praia Norte, Viana do Castelo.
A Saccorhiza polyschides não é, no entanto, a única alga presente no sargaço do Norte. Entre as algas castanhas destacam-se as Laminaria ochroleuca e Laminaria hyperborea, de grande porte, e as Fucus, de menor porte. Entre as verdes, encontram-se, o Codium tomentosum e várias espécies de Ulva, por exemplo. Das vermelhas fazem parte espécies como a Gelidium, a Palmaria palmata e o Chondrus crispus, entre outras.
É esta abundância e diversidade que ajuda a explicar a importância histórica da apanha do sargaço no Norte, e em particular no litoral minhoto. A quantidade e a qualidade da biomassa que dava à costa nesta região era muito superior à encontrada no restante litoral português. Durante séculos, esta mistura de algas foi utilizada pelas populações costeiras como fonte de matéria orgânica e nutrientes para os terrenos agrícolas.







↑ GRANDE QUANTIDADE DE SARGAÇO ARROJADO À PRAIA
2026. Praia do Castelo do Neiva, Viana do Castelo.
