TEXTO
Maria Manuela Restivo
IMAGENS A P&B
Ernesto Veiga de Oliveira,
Fernando Galhano
e Benjamim Pereira;
Severino Costa
IMAGENS A COR
A Recoletora
06.2026
Ecologia
Consideradas por muitos como as primeiras “plantas” do nosso planeta, numa altura em que a vida estava restrita aos oceanos e lagos, as algas existem na Terra há pelo menos 1,6 bilhões de anos (data do mais antigo depósito fóssil encontrado). Acredita-se que todas as plantas terrestres evoluíram a partir das algas verdes, em específico do grupo das carófitas, que gradualmente desenvolveram adaptações para se fixarem em terra.
As algas encontram-se normalmente em ecossistemas aquáticos, havendo diferentes espécies adaptadas para viver em ambientes de água salgada e doce; no entanto, algumas espécies de algas desenvolveram relações simbióticas com fungos, dando origem aos líquenes, que ocorrem em terra, habitualmente em locais húmidos e pouco acessíveis.
No caso do projeto “Pasto das marés” e deste manual, o foco estará nas algas marinhas, nomeadamente nas macroalgas, ou seja, nas algas visíveis a olho nu encontradas nas rochas das praias durante a maré baixa. Estas algas apresentam uma enorme variedade de formas, tamanhos e cores, podendo ter milímetros de comprimento ou atingir dimensões colossais até aos 60 metros, formando autênticas florestas aquáticas.
Classificação
As macroalgas estão organizadas essencialmente em três grandes grupos, de acordo com os pigmentos presentes nas suas células: algas verdes (Chlorophyta), algas vermelhas (Rhodophyta) e algas castanhas (Phaeophyceae).
Estima-se que existam cerca de 10.000 espécies de macroalgas no mundo — aproximadamente 1.200 são algas verdes, 1.800 são castanhas e 7.000 são vermelhas. Enquanto que as algas verdes e as vermelhas são de pequena dimensão, as algas castanhas tendem a ser muito maiores. As variações de cor dos três grupos resultam dos diferentes pigmentos que possuem e que desempenham a mesma função que a clorofila (o pigmento que confere às plantas a cor verde ), e que permite que absorvam energia da luz solar. Na verdade, estes três grupos de algas contêm todos alguma percentagem de clorofila verde, mas as algas vermelhas e castanhas também possuem outros pigmentos. Uma das formas mais divertidas de nos apercebermos destes outros pigmentos que as algas vermelhas e castanhas possuem é quando as cozemos em água quente. O que acontece é que elas mudam de cor: as algas vermelhas, ficam castanhas; já as algas castanhas ficam verdes! As únicas que não mudam de cor são, precisamente, as verdes. A razão para a mudança da cor é que os pigmentos (que mascaram o pigmento verde presente) são decompostos, tornando os outros pigmentos, normalmente invisíveis, visíveis.
Morfologia
Essencialmente, as algas dividem-se em três partes distintas: base de fixação (que numa planta, corresponde à raiz), estipe (o equivalente ao caule) e fronde ou lâmina (parte equiparada à folha).
Importância
Em Portugal o extraordinário potencial das algas é, de uma forma geral, desconhecido da maioria da população. Acreditamos, portanto, que a sua disseminação pode originar perspectivas inovadoras, questionar modos de vida e amplificar economias.
As algas prestam inúmeros serviços ecológicos: são a fonte de alimento e o refúgio para a vida animal marinha; são uma das principais fontes de oxigénio (estima-se que cerca de 50% a 70% do oxigénio presente na atmosfera terrestre seja gerado por algas) e capturam grandes quantidades de carbono; ajudam a regular o clima e na limpeza dos oceanos (algumas macroalgas, como a alface-do-mar, possuem a capacidade de remover metais pesados das águas contaminadas pela ação humana, de forma rápida e eficaz); contribuem para a prevenção da erosão costeira, enfraquecendo a força das ondas e servindo como barreira natural.
No que diz respeito aos benefícios da utilização das algas pelos seres humanos destacamos: a sua eficácia enquanto adubo orgânico do solo (por serem muito ricas em minerais, como azoto e o potássio, as algas ajudam no crescimento das plantas cultivadas); o seu valor alimentar e a riqueza nutricional que oferecem, com múltiplos benefícios para a saúde; a grande diversidade de aplicações na indústria (alimentar, farmacêutica, cosmética, laboratorial, etc).
Por fim, é importante notar que as algas crescem rapidamente e cultivam-se facilmente, e têm a grande vantagem de não gastarem água doce na sua produção. Com a necessidade de alimentar uma população mundial em crescimento e um planeta a braços com as alterações climáticas, as algas surgem como a solução revolucionária que consegue combater estes dois problemas em simultâneo.