TEXTO: Maria Manuela Restivo
IMAGENS: A Recoletora
Os barracos ou palheiros consistiam em construções rudimentares localizadas junto à linha costeira, destinadas ao apoio das atividades agro-marítimas. Serviam essencialmente para guardar utensílios utilizados na pesca e na apanha do sargaço, como barcos, redes, remos, etc, mas também o próprio sargaço. Não era raro, porém, que essas construções servissem também como abrigo dos trabalhadores, sobretudo os que viviam longe da costa. Alguns pernoitavam aí algumas noites, para que a faina pudesse começar assim que o sol nascia. Outros passavam apenas temporadas, como a da apanha do sargaço, que durava em média de Junho a Setembro. Outros ainda acabavam por fazer destas construções a sua residência permanente.
Rocha Peixoto, esse rigoroso etnógrafo inventariador, escrevia já em 1898: “No litoral minhoto os grupos de barracás ou telheiros que mesclam a praia constituem, as mais das vezes, abrigos para os utensílios destinados à colheita das algas e propositadamente edificados sob esse intento, mercê do papel atribuído àquela espécie de adubo agrícola. São principalmente as que vemos na Ponta do Cabedelo, Moledo e Caíde (sul da foz do Minho), Moinho do Bispo, Fão e Gramadoura. De ordinário constituem dependências de casas de lavoura, só utilizadas, fora do abrigo referido, nas épocas de procura do sargaço e em vista da arrecadação volante deste ou como residência temporária do sargaceiro.”
Este etnógrafo acreditava que estas construções “testemunham materialmente o génio do povo”, tendo sido o primeiro a identificá-las e mapeá-las ao longo da costa, resultando daí um surpreendente registo de variações locais, quer do ponto de vista dos materiais, quer das técnicas e soluções construtivas. De facto, é surpreendente seguir Rocha Peixoto e perceber como estes barracos foram erguidos por populações sem treino e sem escola, recorrendo a materiais endógenos e conhecimentos vernaculares, que mais justamente deveriam ser classificados como sofisticados e não rudimentares.
Um mapeamento semelhante foi retomado nos anos 1960 por Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira, resultando no livro Construções primitivas em Portugal. Verificamos que estas construções foram diminuindo ao longo das décadas, sendo que hoje pouco ou nada resta delas. A maioria desapareceu por falta de necessidade e uso, mas muitas transformaram-se em construções mais sólidas, de pedra ou betão, servindo ora as velhas funções de apoio às atividades agro-marítimas, ora transformando-se em habitações permanentes para as populações locais ou até para turistas, como no caso de Vila Chã.






