TEXTO POR MARIA MANUELA RESTIVO
19.08.2026
As embarcações desempenharam um papel fundamental na apanha do sargaço, sobretudo por permitirem alcançar zonas afastadas da praia ou de difícil acesso a pé. Mais do que simples meios de transporte, constituíam instrumentos de trabalho adaptados às condições específicas de cada parte da costa, às marés, aos fundos rochosos e às técnicas de recolha. A sua diversidade — das masseiras às jangadas, passando por pequenos barcos de pesca — mostra como a atividade sargaceira se apoiava num conhecimento técnico estreitamente ajustado ao meio marítimo local.
MASSEIRA
As masseiras, também chamadas gamelas, eram pequenas embarcações de fundo chato e ligeiramente arqueado. A sua construção era simples e robusta, feita com tábuas espessas e revestida, por dentro e por fora, com breu negro. Eram embarcações particularmente ajustadas às condições do litoral rochoso, podendo navegar a remo, à vara e, em certos casos, à vela. A sua solidez e a facilidade de manobra entre penedos tornavam-nas especialmente adequadas às atividades sargaceiras.
Nos grandes estos de verão, em que a maré se encontrava especialmente vazia, os afloramentos rochosos mais densos, onde cresciam grandes massas de algas, ficavam a descoberto ou tornavam-se mais acessíveis, permitindo uma apanha mais intensiva. Os lavradores que dispunham de masseiras serviam-se delas para alcançar esses pontos, mais distantes ou difíceis de atingir a pé.
Geralmente, cada masseira levava quatro mulheres e um homem. Este conduzia a embarcação, a remo ou à vara, enquanto aquelas, duas por cada borda, se ocupavam da colheita. O gesto técnico era preciso e repetido: com o braço esquerdo mergulhado, tombavam sobre ele uma quantidade de algas e, com a mão direita, cortavam-nas com uma foicinha vulgar, puxando-as em seguida para dentro da embarcação. Quando a masseira ficava cheia, regressava a terra, onde era descarregada diretamente para o carro de bois, que seguia depois em direção à duna ou ao local de armazenamento. A embarcação voltava então ao mar, repetindo a operação até que a subida da maré obrigasse ao fim do trabalho. Por vezes, certas casas que possuíam embarcações, mas dispunham de poucas mulheres para participar na colheita, associavam a si outras mulheres exteriores à família, distribuindo no final o resultado da apanha.
Encontravam-se sobretudo entre Caminha e Castelo de Neiva, sendo particularmente numerosas em Âncora e Caminha. A sul dessa zona, não há indicação segura do seu uso.
Em 1891, Baldaque da Silva aponta a existência de 1 masseira na Ínsua, 10 em Moledo, 2 no Caneiro do Forte do Cão, 8 em Afife, 12 em Paçô, 2 em Fornelos e 6 na Fonte do Mar ¹.
1. Baldaque da Silva, António Artur. (1891). Estado actual das pescas em Portugal: Comprehendendo a pesca marítima, fluvial e lacustre em todo o continente do Reino, referido ao anno de 1886. Imprensa Nacional.
JANGADA
As jangadas foram, no passado, um instrumento importante na recolha do sargaço, já que permitiam chegar a zonas rochosas mais distantes da praia. Serviam principalmente para a apanha do sargaço, mas tinham também outros usos associados à exploração dos recursos costeiros. Não se tratava de embarcações feitas para grandes deslocações ou para se afastarem muito da costa, mas antes de estruturas destinadas a trabalhar em zonas de transição, entre a praia, os rochedos e os fundos pouco submersos. Eram geralmente tripuladas por uma ou duas pessoas, homens ou mulheres, e a sua utilização exigia um conhecimento preciso da maré, dos penedos e dos lugares onde o sargaço se acumulava. Em terra, as jangadas deslocavam-se sobre um rodado; no mar, eram movidas à vara e podiam ser fundeadas com uma poita.
As jangadas eram usadas de forma bastante ampla na costa norte, sobretudo entre Anha, a sul de Viana do Castelo, e a Aguçadoura, a norte da Póvoa de Varzim. Com o tempo, estas embarcações desapareceram quase por completo, sobrevivendo sobretudo em Castelo do Neiva e Aver-o-Mar, e ainda, em menor número, nas Marinhas e na Apúlia. Apesar de apresentarem a vantagem de poder trabalhar sobre pedras pouco submersas, perigosas para outros tipos de embarcação, a dificuldade de manobra levou progressivamente à sua substituição por pequenas catraias e pelo uso dos próprios barcos de pesca.