TEXTO POR MARIA MANUELA RESTIVO E A RECOLETORA
FOTOGRAFIA E VÍDEO POR A RECOLETORA
DESENHO POR FERNANDO GALHANO
06.08.2026

↑ DESENHO DA GANCHA
Por Fernando Galhano. Digitalização da página 54, do livro "Actividades Agro-Marítimas em Portugal", 1990.
A gancha é um instrumento destinado à apanha do argaço, usada sobretudo na zona de Vila Praia de Âncora. Em certas fontes escritas é designado como gancho; localmente, porém, o termo gancha continua a predominar.
Segundo a ex-sargaceira Helena Capela, a gancha era utilizada para apanhar o “argaço grosso” quando o mar estava “rijo” e, por isso, demasiado perigoso para permitir às pessoas entrarem mar adentro. Nestas circunstâncias, a gancha permitia alcançar o argaço que se encontrava mais afastado da praia, onde o corpo já não chegava facilmente.

«Com a gancha tinha que ser o argaço grosso. O mar estava rijo, a gente não podia chegar — botava-se a gancha, fugia-se e puxava-se com uma corda»
HELENA CAPELA • EX-SARGACEIRA • Nasc. 1949
Vila Praia de Âncora
A sua construção era extremamente simples. Escolhia-se a ponta de um pinheiro e cortavam-se alguns dos seus ramos, aos quais se prendia uma corda e alguns pesos para garantir que o instrumento mergulhava na água, tais como “parafusos da linha do comboio”, como nos conta Helena Capela. Por isso, quer pela sua morfologia quer pela sua utilização, a gancha assemelha-se a uma âncora. A corda, presa numa das interseções dos galhos, permitia lançar a gancha para o meio da massa de algas e puxá-la para terra. Os ramos prendiam e enrolavam o argaço, trazendo-o consigo.

↑ PINHEIRO-BRAVO (Pinus pinaster)
Vista geral em contexto.
2026. Serra de Arga, Viana do Castelo.

↑
Duas vistas da ramificação verticilada (três ou mais ramos nascem do mesmo ponto no caule)

Do ponto de vista funcional, pode estabelecer-se um paralelo com o croque. Ambos apresentam um conjunto de pontas divergentes destinado a prender o sargaço. Mas a relação que estabelecem com o corpo é bastante diferente. Tal como muitos dos instrumentos usados na apanha de algas, a gancha funciona como uma extensão corporal; será, porém, uma das extensões mais longas entre os utensílios que encontrámos. Neste caso, o prolongamento não é feito apenas através de uma vara rígida, mas sobretudo através da corda. Isso obriga também a um gesto distinto: em vez de alcançar, raspar ou puxar diretamente, é necessário lançar o instrumento para longe, fazê-lo cair no local desejado e trazê-lo para junto do corpo. A eficácia depende, portanto, de uma combinação entre força, cálculo da distância, direção do lançamento, peso do instrumento e leitura do movimento da água.
É precisamente esta aparente simplicidade que torna a gancha num instrumento particularmente interessante. No livro Actividades agro-marítimas em Portugal, o instrumento é descrito como “extremamente primitivo”. Mas aquilo que poderia ser entendido como rudimentar é na verdade revelador de uma solução técnica engenhosa e perfeitamente ajustada às circunstâncias. Perante um mar demasiado bravo para trabalhar junto à rebentação, mas carregado de algas que importava aproveitar, os sargaceiros encontraram uma forma de prolongar o seu corpo, recorrendo aos materiais disponíveis em seu redor. A gancha evidencia aquilo que o investigador Glenn Adamson tem designado por inteligência material: uma forma de resolver problemas através da combinação engenhosa dos materiais (assente no seu conhecimento empírico) e de soluções técnicas ajustadas às circunstâncias.


↑ GANCHA
Copa de pinheiro jovem apanhado do chão e corda.
2026. Serra de Arga.
No livro Actividades agro-marítimas em Portugal – uma fonte primordial para as temáticas aqui abordadas – é referido que a gancha seria usada em Âncora por “rapazitos”, sobretudo em momentos de grande abundância de sargaço. Os testemunhos que recolhemos permitem, contudo, questionar esta circunscrição. A historiadora Aurora Rego, natural dessa localidade, recorda que a sua mãe, que fora sargaceira, falava frequentemente da gancha e da sua utilização. Helena Capela descreve igualmente o seu uso a partir da própria experiência. A gancha não parece, por isso, ter pertencido exclusivamente ao universo das crianças ou dos rapazes, mas a um repertório técnico mais amplo da comunidade sargaceira.
«espécie de âncora, feita de galhos»
AURORA REGO • HISTORIADORA • Nasc. 1959
Vila Praia de Âncora
↑ GANCHA
Vista aérea. 2026. Praia do Castelo do Neiva, Viana do Castelo.
O instrumento podia mesmo ultrapassar a função para a qual havia sido concebido. Helena Capela recorda que a apanha do sargaço era “um trabalho escravo e perigoso” e conta como, numa situação em que o irmão Manuel se encontrava em perigo no mar, as cordas das ganchas enleadas foram utilizadas no salvamento: “mandamos as cordas umas nas outras e puxamo-lo”. A mesma lógica de improvisação que presidia à sua construção serviu, assim, para a realização de um salvamento.
Decidimos construir uma gancha e experimentá-la. Tanto quanto conseguimos apurar, a sua representação visual reduz-se praticamente ao desenho publicado no livro Actividades agro-marítimas em Portugal. Refazer o instrumento permitiu-nos não apenas produzir novos registos fotográficos e em vídeo, tornando mais clara a sua forma de utilização, mas também testar materialmente aquilo que as fontes escritas e orais descreviam. A escolha do pinheiro-bravo (Pinus pinaster) não parece ser, também ela, fruto do acaso. Espécie abundante no território de Vila Praia de Âncora, presente tanto na envolvente da vila como nas matas junto ao litoral, o pinheiro-bravo fazia parte da paisagem familiar dos sargaceiros. A forma como esta espécie se ramifica, com três ou mais ramos a sair do mesmo ponto e que, na copa jovem, são tendencialmente ascendentes, proporciona uma estrutura adequada à função da gancha, enquanto a resistência da sua madeira permite que os ramos suportem a tensão do lançamento e da tração sem se partirem facilmente. Há, neste gesto aparentemente simples, um exercício de observação do sargaceiro particularmente importante: conhecer o que está à sua volta, reconhecer as propriedades dos materiais disponíveis e perceber de que modo podem ser transformados para responder a uma necessidade concreta. A experiência de lançar a gancha ao mar permitiu perceber melhor os movimentos necessários, o comportamento do instrumento na água e a sua eficácia concreta na captura das algas. E a conclusão foi simples: funciona.
A gancha condensa, por isso, uma característica transversal às tecnologias da apanha do sargaço: a capacidade de produzir soluções a partir de muito pouco. Mais do que um utensílio “primitivo”, é uma tecnologia eficaz que responde integralmente às necessidades e circunstâncias.
