TEXTO POR MARIA MANUELA RESTIVO
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17.05.2026
A atividade de recolher ou apanhar argaço é comum a vários países europeus com costa marítima. Apresenta particular expressão em países como Portugal, Espanha, França, Irlanda, Reino Unido, Islândia, Noruega e Dinamarca. Historicamente ligada sobretudo à prática da agricultura, a atividade adquiriu, ao longo do século XX, relevância a nível industrial, contribuindo para a indústria farmacêutica, cosmética e alimentar. Entre os casos mais marcantes encontram-se a Bretanha francesa, a Irlanda e a Escócia, onde esteve associada à fertilização dos campos, e a Noruega, onde a exploração foi sendo progressivamente mecanizada, atingindo atualmente milhares de toneladas.
Em Portugal, encontra-se documentada desde a Idade Média, período em que parece ter adquirido maior importância, embora seja possível afirmar que se trate de uma prática bastante mais antiga. A primeira referência conhecida ao assunto em documentos oficiais surge no foral de D. Dinis, de 9 de maio de 1308, onde se declara que o rei atribuía o sargaço da zona do Póvoa de Varzim aos seus moradores. Apesar de esta atividade ter sido recorrente em diferentes pontos da costa portuguesa, destacando-se a ria de Aveiro, a lagoa de Óbidos, Figueira da Foz e a costa situada entre Peniche e a Ericeira, foi a norte do rio Douro que ela assumiu maior intensidade e frequência, constituindo, durante vários séculos, uma atividade relevante para a subsistência das populações locais.
Os mares e as praias desta região condensavam, de facto, um conjunto de características particularmente propícias à produção e recolha do sargaço: uma costa rochosa,, um mar frequentemente agitado, capaz de arrancar as algas e de as trazer para terra, e areais suficientemente extensos para permitir a sua secagem. A apanha do sargaço dependia, assim, de uma ecologia costeira específica, feita de rochedos, marés, ventos, correntes, praias e campos agrícolas.
Ao contrário de outras atividades marítimas, a apanha do sargaço tinha uma forte dimensão sazonal, concentrando-se sobretudo entre os meses de maio e setembro, com especial incidência em julho e agosto. Um bom dia para recolher sargaço ou para a “função do argaço”, como era localmente denominado, estava diretamente relacionado com o estado das marés e com a quantidade de algas que o mar lançava à praia ou deixava acessível junto aos rochedos. Tratava-se, por isso, de uma atividade marcada por alguma imprevisibilidade, dependente dos ritmos do mar e da ocorrência de dias especialmente favoráveis, que era necessário aproveitar quando surgiam.
O argaço recolhido destinava-se sobretudo à adubação das terras agrícolas, pois desde cedo as populações reconheceram nas algas um fertilizante natural particularmente eficaz. É curioso pensar na origem desse conhecimento, construído e transmitido muito antes de qualquer investigação científica sistemática sobre o tema. De facto, só estudos recentes nas áreas da química e da botânica vieram identificar a importância de certos componentes presentes nas algas. O modo como as populações locais chegaram a este conhecimento — como sucede com tantos outros saberes vernaculares — permanece, em larga medida, desconhecido, embora resulte certamente de um processo cumulativo de observação empírica, experiência e transmissão informal. Também há registos da sua utilização, ainda que numa escala mais reduzida, na alimentação animal, destacando-se a botelha para alimento de suínos. De acordo com a informação recolhida, esta função parece ter diminuído ao longo do século XX.
No seu estudo extensivo sobre as pescas em Portugal em finais do século XIX, Baldaque da Silva identificou, para o ano de 1886, a existência de 4479 pessoas dedicadas à apanha do sargaço na costa portuguesa, num total de 46 150 carradas, número que o próprio admite ser apenas aproximado, dado que na realidade o número devia ser bastante superior.
Por se tratar de uma prática exercida durante vários séculos e em diferentes regiões, não é fácil, nem sequer aconselhável, fazer uma caracterização sistemática daquilo que podemos designar por culturas do sargaço. As suas formas variaram ao longo do tempo e do espaço, acompanhando diferentes regimes de propriedade, necessidades agrícolas, constrangimentos legais, formas de organização familiar, divisões de género e tecnologias de apanha.
No litoral a norte do rio Douro, região que aqui nos interessa particularmente explorar, a apanha do sargaço era uma atividade generalizada e praticada ao longo de vários séculos. Ainda assim, existiam variações locais consideráveis, quer no que diz respeito à organização da atividade, quer no que toca à participação de homens, mulheres e crianças, às regras de acesso à apanha, aos instrumentos utilizados ou aos destinos dados às algas recolhidas.
A apanha do sargaço podia ser realizada diretamente pelos próprios lavradores, que recolhiam as algas para adubar os seus terrenos, ou por outros habitantes das comunidades costeiras, que as destinavam ao uso próprio — quando dispunham de alguma parcela de terra — ou à venda a lavradores e intermediários responsáveis pela sua distribuição para fins agrícolas. Em 1957, Abel Viana dá conta de que “Cada família apanha para si, ou seja, para empregar o sargaço em suas terras próprias”. Há que lembrar, porém, que nem toda a população era proprietária de terrenos, ainda que fosse habitual haver uma pequena horta para exploração familiar. Eram frequentemente essas pessoas, sem terrenos consideráveis ou com recursos muito limitados, que se dedicavam à apanha do sargaço enquanto atividade económica e de subsistência, fazendo-o sobretudo para vender. Para estas populações, a apanha do sargaço, pela sua natureza sazonal, era complementada com várias outras atividades: pesca, trabalho no campo “à jorna”, apanha do marisco e do pilado, ou até recolha de pinhas e lenha seca.
Tal significa que as “gentes do mar”, como são por vezes denominadas, tendiam a acumular diversas atividades agro-marítimas, podendo ser simultaneamente lavradores, marisqueiros, sargaceiros e pescadores, ainda que a pesca fosse tendencialmente, mas não exclusivamente, uma atividade masculina. Em determinadas localidades, como em Vila Chã ou na Póvoa de Varzim, a divisão entre lavradores, enquanto proprietários de terra, e pescadores, parece ter sido mais consistente do que noutras, correspondendo os primeiros a uma classe social mais abastada e os segundos a uma população com maiores dificuldades económicas. Porém, as fontes consultadas e os testemunhos recolhidos no distrito de Viana deixam antever que, embora a apanha do sargaço fosse um recurso fundamental para muitas famílias pobres e fosse entre estas predominante, não era uma atividade exclusiva das classes mais baixas. Recolhemos relatos de mulheres que recorriam à apanha de forma esporádica, como meio de obter algum rendimento extra.
Maria, residente em Moledo, conta-nos que só ocasionalmente ia apanhar sargaço, mas que as soleiras da sua casa foram pagas com o dinheiro obtido nessa atividade. Várias mulheres referiram ter utilizado parte dos rendimentos obtidos com o sargaço na compra de roupa nova ou de peças de ouro, como brincos de Viana, cordões e colares de contas.
Como se lê no livro de Veiga de Oliveira, Benjamim Pereira e Fernando Galhano, a “gente nova encontrava no argaço que recolhia – e depois vendia – um meio de realizar um numerário em vista à satisfação de certos desejos que de ordinário a economia da casa não lhes facultava”. A apanha do argaço podia, assim, funcionar não apenas como estratégia de sobrevivência, mas também como forma de acesso a pequenos consumos, objetos de prestígio ou melhorias domésticas que a economia familiar mais estrita dificilmente permitiria. Não obstante, tratava-se sobretudo de uma atividade que podia constituir uma importante fonte de rendimento para as populações menos abastadas, sendo frequentemente descrita como uma prática dura, exigente e marcada por um esforço físico considerável.
A apanha do sargaço era realizada tanto por homens como por mulheres, ainda que em algumas regiões a apanha feminina fosse predominante.
Também as crianças começavam cedo a participar na atividade. Maria do Céu Costa recorda-se de ajudar a mãe nas lides do sargaço antes de ir para a escola, o que atesta a idade precoce com que se começava a aprender e a praticar esta faina. Nos testemunhos que fomos recolhendo, a sargaceira Natália refere ter iniciado a recolha aos 13 anos, Helena Capela e Emília Pita aos 12 anos. Muitas vezes começavam por ajudar as mães, mas depressa se autonomizavam, podendo mesmo percorrer grandes distâncias sozinhas (ou acompanhadas de outras mulheres) ainda de madrugada, no caminho que levava de casa à praia.
Considerando os vários séculos da apanha do sargaço em Portugal, pelo menos desde a sua documentação, é possível afirmar que a atividade se manteve relativamente estável do século XIV a meados do século XX, altura em que se identificaram alterações significativas.

1. Oliveira, Ernesto Veiga de, Galhano, Fernando, & Pereira, Benjamim. (1975). Actividades agro-marítimas em Portugal. Instituto de Alta Cultura / Centro de Estudos de Etnologia.
2. Faria, Horácio. (2008). As sargaceiras de Afife. Revista Estudos Regionais, II série, 2, 199–236
3. Centro de Mar. (2016). Um mar de tradições. Câmara Municipal de Viana do Castelo.
4. Centro de Mar. (2016). Um mar de tradições. Câmara Municipal de Viana do Castelo.
5. Oliveira, Ernesto Veiga de, Galhano, Fernando, & Pereira, Benjamim. (1975). Actividades agro-marítimas em Portugal. Instituto de Alta Cultura / Centro de Estudos de Etnologia.
6. Centro de Mar. (2016). Um mar de tradições. Câmara Municipal de Viana do Castelo
7. Faria, Horácio. (2008). As sargaceiras de Afife. Revista Estudos Regionais, II série, 2, 199–236


É nesta época que algumas algas começam a ser utilizadas para fins industriais, sobretudo nas indústrias cosmética e farmacêutica, dada a descoberta do seu papel enquanto “fornecedoras de ágar-ágar (agarófitas), de carrigine (carraginófitas) e de alginatos (aliginófitas)”.
A partir desse momento, e para além da apanha mais indiferenciada, certas algas passam a ser identificadas, selecionadas e vendidas em separado, adquirindo um valor económico mais elevado. A apanha deixa também de se circunscrever aos meses de maior abundância de sargaço e passa a realizar-se ao longo do ano, sempre que as marés o permitirem, ainda que sem uma alteração significativa das tecnologias utilizadas. Paradoxalmente, é também nesta altura que o sargaço é substituído por fertilizantes químicos para adubar as terras, provocando uma queda considerável na sua apanha pelas populações locais.
Atualmente, a apanha do sargaço assume um caráter residual. Desde 2009, as Capitanias deixaram de emitir licenças para a apanha de algas, sendo hoje apenas necessária autorização para a sua secagem na praia. Contactadas as Capitanias de Viana do Castelo e de Caminha, a primeira informou não ter emitido qualquer licença para 2026, enquanto a segunda registou sete licenças de secagem, o que indica que a atividade ainda subsiste, embora de forma muito limitada. É provável que algumas pessoas continuem a apanhar sargaço sem proceder à sua secagem junto à praia, mas, à luz da pesquisa realizada, tudo aponta para uma prática bastante reduzida.
Porém, o sargaço não desapareceu: continua a dar à costa todos os verões, acumulando-se nas praias e causando desconforto a alguns banhistas, tanto pela sua presença no mar como na areia. Na água, a sua textura e aparência viscosa podem causar repulsa aos banhistas menos familiarizados com estas algas; na areia, à medida que o sargaço seca e se acumula, tende a libertar odores e a atrair insetos. Esta situação tem levado algumas autarquias a organizar operações de remoção, mobilizando recursos económicos para a realização de uma atividade anteriormente realizada pelas populações locais, enquanto parte dos seus modos de vida.
Paradoxalmente, vivemos num contexto em que os impactos associados ao uso intensivo de fertilizantes químicos se tornaram particularmente problemáticos, incentivando a procura de alternativas e a reconsideração das relações entre agricultura, recursos naturais e sustentabilidade.
Em pleno século XXI, e perante uma crise ecológica sem precedentes, talvez seja precisamente aqui que se possa reabrir a discussão sobre o sargaço: não no sentido de forçar o reaparecimento de uma atividade tradicional tal como existiu no passado, mas procurando perceber de que modo as potencialidades das algas podem ser úteis à sociedade de hoje. Importa perguntar como se articulam com as necessidades contemporâneas e que alternativas podem sugerir perante os desafios do presente.