TEXTO POR A RECOLETORA
FOTOGRAFIA E VÍDEO POR A RECOLETORA
23.08.2026

Os filhos das sargaceiras tinham por hábito chupar a alga Desmarestia, como os garotos do monte chupavam a erva-azeda. Estes, os da linha do mar, eram meninos anfíbios: iam com as mães e as avós ao argaço, à Praia Norte e, enquanto apanhavam algas, brincavam nas poças das Pedras Ruivas.
As sargaceiras detestavam aquela alga ácida. Diziam que deixava os palheiros húmidos e viscosos e que era má para as batatas. As crianças, pelo contrário, chamavam-lhe "azedinha-do-mar" e levavam-na à língua. Às vezes demoravam-se demasiado e a alga abria-lhes pequenos orifícios no céu da boca que saravam, quase de imediato, com as mezinhas da Perruca. Com o polegar da mão esquerda, na boca da criança, fazendo-lhe uma figa, talhava:
«Espírito divino,
consol’à boca
do m’nino»
Àquelas mulheres, a Desmarestia tinha outra função para além das caretas e dos buracos na boca. Quando morta e seca ao sol, deixava nas pedras ruivas, cheias de óxido de ferro, desenhos que pareciam impressões. A acidez desta alga alterava a superfície da pedra e a libertação de ácido sulfúrico deixava o seu próprio corpo marcado. Para as sargaceiras, eram os fantasmas das algas e anunciavam os dias de “função de argaço”, quando o mar lançava grandes enchentes de algas à praia. A posição da pedra na areia, a direção da marca, a intensidade da cor ou a forma deixada pela alga — tudo eram sinais.
Já ninguém se lembrava quem tinha começado a ler presságios nos seixos da Praia Norte. Havia quem dissesse que esta prática adivinhatória vinha já do tempo dos romanos, que por aqui andaram. Uma pedra marcada, virada para o mar, uma impressão mais funda e mais fechada podiam bastar para indicar uma boa apanha.
Ao longe, os jangadeiros que vieram de Anha andavam a cortar taborros canuchentos nas pedras do fundo. As musguentas, com as saias molhadas, andavam a gastar as unhas nas rochas bicudas, rapando o musgo que já tinha sido raspado para vender ao Lopes. As redeiras aguardavam pela maré alta, que trazia o argaço à beirada. Andavam secas na praia e à espera. Iam pelas pedras ruivas à procura de marcas, mas não lhes tocavam. Ficavam apenas a observá-las e a comentar, umas para as outras, quando vinha a nortada que trazia a boa mareada.


↑ Monumento Natural Local das Relíquias do Rheic das Pedras Ruivas

↑ Desmarestia ligulata
Vista geral

↑
Detalhe da ramificação

↑ Desmarestia ligulata, vídeo em contexto




↑ "Oráculo"
Vídeo 4K, som, 03’21’, loop. 2026.














contexto: Encontramos na praia Norte umas pedras alaranjadas com imagens de algas impressas. No testemunho aúdio do Ricardo Carvalhido, que o Alex te enviou, ele fala sobre estas pedras.
— página do site dedicada a estas pedras: