TEXTO
Maria Manuela Restivo
IMAGENS A P&B
Ernesto Veiga de Oliveira,
Fernando Galhano
e Benjamim Pereira;
Severino Costa
IMAGENS A COR
A Recoletora
06.2026
Num primeiro olhar, poderíamos pensar na praia como um lugar particularmente democrático: são espaços gratuitos e abertos a quem deles quiser usufruir. De facto, e ao contrário de tantos sítios onde uma codificação nos modos e no vestuário se impõe, a praia parece revelar-se menos normativizada, mais livre.
Uma análise mais atenta revela, porém, que ao longo do século XX se desenvolveram duas vivências opostas da praia: a praia como lazer e a praia como lugar de trabalho. A ideia de “fazer praia” no sentido que hoje lhe damos – apanhar banhos de sol e mar, relaxar, ler, jogar raquetes – era apanágio de uma elite urbana, e estranha às populações locais. Para estas, a praia era lugar de faina: nela se esperava a chegada dos pescadores, consertavam-se as redes, apanhava-se sargaço e pilado para colmatar os curtos orçamentos familiares.
Em Moledo, esta oposição concretizava-se em espaços distintos: as elites instalavam-se na praia principal, e as populações locais que andavam ao sargaço ocupavam a zona das rochas, onde estendiam o sargaço na areia para secar. Quando passava gente de fora na zona do sargaço, contam-nos, eram enxotadas pelos locais, porque calcavam o sargaço e desfaziam-no em pedacinhos que dificultavam a recolha.
possíveis títulos:
O primeiro nomeia o fenómeno; o segundo revela a tensão que está por baixo dele.