TEXTO POR MARIA MANUELA RESTIVO
VÍDEO POR A RECOLETORA
14.06.2026
O conceito de agro-marítimo designa a articulação entre práticas agrícolas e marítimas, podendo assumir diferentes configurações históricas, económicas e culturais. Ao contrariar uma separação demasiado rígida entre as atividades da terra e as atividades do mar, este termo revela-se pertinente para pensar práticas em que estes dois universos se cruzam e se tornam mutuamente dependentes. Na obra Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, o geógrafo Orlando Ribeiro recorre à expressão “modo de vida anfíbio” para caracterizar as populações que repartem a sua atividade entre o trabalho da terra (como lavrar, semear e cultivar) e as atividades marítimas, como a pesca e a apanha do sargaço e do pilado. A própria etimologia de “anfíbio” reforça esta ideia de articulação entre dois meios: a palavra deriva do grego antigo amphíbios, formada por amphi (“ambos”, “duplo”) e bios (“vida”), significando literalmente “duas vidas” ou “aquele que vive em dois meios”.
É precisamente neste cruzamento de elementos que se podem situar as culturas do sargaço. A apanha do sargaço coloca em relação dois universos frequentemente pensados como separados: o campo e o mar. Esta prática nasce da necessidade de fertilizar as terras agrícolas, num contexto em que cedo se reconheceu o valor das algas como adubo natural. Retirado do mar, o sargaço era transportado para terra e incorporado nos campos, integrando-se num ciclo produtivo em que uma matéria de origem marítima se convertia em fertilidade agrícola. A apanha do sargaço revela, assim, menos uma oposição entre terra e mar do que uma relação de profunda interdependência entre ambos.

↑ AGRO-MARÍTIMOS
Digitalização da página 101, do livro "Actividades Agro-Marítimas em Portugal", 1990.
As algas marinhas, à semelhança das plantas terrestres, podem formar verdadeiras florestas submersas, ecossistemas biologicamente ricos que crescem no mar fixos a diferentes substratos, sobretudo rochosos.
A sua recolha não correspondia apenas a uma extração de recurso, mas a uma forma de conhecimento situada, dependente das marés, dos fundos rochosos, dos ventos, dos instrumentos, das embarcações e dos ritmos sazonais. A praia surgia, neste contexto, como espaço intermédio: nem plenamente agrícola, nem exclusivamente marítimo, mas lugar de passagem, secagem, transporte e trabalho coletivo.
De um ponto de vista social, a cultura sargaceira questiona a divisão, por vezes bastante marcada, entre agricultores e pescadores. Muitas das pessoas que se dedicavam à apanha do sargaço viviam simultaneamente da agricultura, da pesca e de atividades complementares, como a apanha do pilado ou de outros recursos costeiros. Não eram, portanto, apenas “camponeses” nem apenas “pescadores”: a sua economia e as suas práticas culturais resultavam da articulação entre o cultivo da terra e a recolha de elementos na praia e no mar. Os sargaceiros eram, nesse sentido, verdadeiros anfíbios: pessoas familiarizadas com a terra e com o mar, detentoras de conhecimentos, técnicas e saberes práticos que lhes permitiam mover-se com à-vontade entre ambos os meios.

Tratando-se de uma prática antiga, as culturas do sargaço adquirem hoje uma especial atualidade. Num momento marcado pela crise ecológica e pelas discussões em torno do Antropoceno, estas atividades agro-marítimas permitem repensar formas históricas de uso dos recursos, mas também modos de relação entre espécies, matérias e ambientes. Mais do que um vestígio de um passado rural ou piscatório, o sargaço revela uma ecologia vernacular complexa, onde o mar fertiliza a terra e onde a subsistência humana depende de uma atenção contínua aos equilíbrios entre mundos. Não se trata, portanto, de forçar o reaparecimento de uma atividade tradicional, nem de a devolver artificialmente ao lugar que ocupou no passado. Interessa-nos antes compreender de que modo os seus saberes, gestos e formas de relação com o território podem ser convocados no presente: como dialogam com as necessidades contemporâneas, que respostas podem ensaiar perante os desafios ecológicos atuais e que outros mundos — sociais, materiais e imaginativos — nos permitem desenhar.
As culturas do sargaço convocam assim o conceito de sympoiesis de Donna Haraway, em que a vida deve ser pensada através das implicações mútuas entre diferentes espécies e ecossistemas, não apenas enquanto dimensão biológica mas como condição da existência humana.