TEXTO
Maria Manuela Restivo
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A Recoletora
06.2026
O conceito de agro-marítimo designa a articulação entre práticas agrícolas e marítimas, podendo assumir diferentes configurações históricas, económicas e culturais. Ao contrariar uma separação demasiado rígida entre as atividades da terra e as atividades do mar, este termo revela-se particularmente pertinente para pensar práticas em que estes dois universos se cruzam e se tornam mutuamente dependentes.
É precisamente neste cruzamento que se podem situar as culturas do sargaço. A apanha do sargaço coloca em relação dois domínios frequentemente pensados como separados: o campo e o mar. Por um lado, nasce da necessidade de fertilizar as terras agrícolas, num contexto em que cedo se reconheceu o valor das algas como adubo natural. O sargaço era, assim, retirado do mar para alimentar a terra, integrando-se num ciclo produtivo em que a matéria marítima se transformava em fertilidade agrícola.
As algas marinhas, à semelhança das plantas terrestres, podem formar verdadeiras florestas submersas, ecossistemas biologicamente ricos que crescem no mar fixos a diferentes substratos, sobretudo rochosos. A sua recolha não correspondia apenas a uma extração de recurso, mas a uma forma de conhecimento situada, dependente das marés, dos fundos rochosos, dos ventos, dos instrumentos, das embarcações e dos ritmos sazonais. A praia surgia, neste contexto, como espaço intermédio: nem plenamente agrícola, nem exclusivamente marítimo, mas lugar de passagem, secagem, transporte e trabalho coletivo.
Por outro lado, as práticas sargaceiras também questionam a divisão social, por vezes bastante marcada, entre agricultores e pescadores. Muitas das pessoas que se dedicavam à apanha do sargaço viviam simultaneamente da agricultura, da pesca e de atividades complementares, como a apanha do pilado ou de outros recursos costeiros. Não eram, portanto, apenas “camponeses” nem apenas “pescadores”: a sua economia, os seus gestos e a sua cultura resultavam da articulação entre campos, praia, marés, barcos, animais, fertilizantes naturais e trabalho familiar.
Tratando-se de uma prática antiga, profundamente enraizada nos ritmos da terra e do mar, as culturas do sargaço adquirem hoje uma especial atualidade. Num momento marcado pela crise ecológica e pelas discussões em torno do Antropoceno, estas práticas agro-marítimas permitem repensar formas históricas de uso dos recursos, mas também modos de relação entre espécies, matérias e ambientes. Mais do que um vestígio de um passado rural ou piscatório, o sargaço revela uma ecologia vernacular complexa, onde o mar fertiliza a terra e onde a subsistência humana depende de uma atenção contínua aos equilíbrios entre mundos. Não se trata, portanto, de forçar o reaparecimento de uma atividade tradicional, nem de a devolver artificialmente ao lugar que ocupou no passado. Interessa-nos antes compreender de que modo os seus saberes, gestos e formas de relação com o território podem ser convocados no presente: como dialogam com as necessidades contemporâneas, que respostas podem ensaiar perante os desafios ecológicos atuais e que outros mundos — sociais, materiais e imaginativos — nos permitem desenhar.
As culturas do sargaço convocam assim o conceito de sympoiesis de Donna Haraway, em que a vida deve ser pensada através das implicações mútuas entre diferentes espécies e ecossistemas, não apenas enquanto dimensão biológica mas como condição da existência humana.