TEXTO POR MARIA MANUELA RESTIVO
🔴 FOTOGRAFIA, VÍDEO E TEXTO "OS DESCENDENTES DANÇAM" POR A RECOLETORA
03.10.2026
COM A PARTICIPAÇÃO DO
GECN - GRUPO ETNOGRÁFICO DE CASTELO DO NEIVA ↗︎
Os grupos folclóricos, etnográficos e recreativos desempenham hoje um papel extremamente importante na preservação das memórias e dos modos de vida das populações rurais ou populares, por se dedicarem a práticas culturais muitas vezes marginalizadas dos arquivos oficiais – relembre-se que os arquivos eram, fundamentalmente, lugares das e para as elites. Através dos trajes, dos instrumentos, das músicas, das danças e da recriação de gestos associados ao trabalho, estes grupos mantêm visíveis modos de vida que, de outro modo, tenderiam a desaparecer da memória coletiva. As culturas agro-marítimas, mais concretamente a atividade sargaceira, integram este universo. Em localidades como Castelo do Neiva ou a Apúlia, a figura do sargaceiro permanece, assim, presente não apenas através das recordações daqueles que conheceram diretamente esta atividade, mas também por intermédio de formas organizadas de representação pública do passado, sobretudo através do traje, das músicas e das danças. São estes grupos que, nos dias de hoje, dão a conhecer às gerações mais jovens um modo de vida que muitas delas nunca chegaram a conhecer ou sequer ouviram falar.
Esta passagem de uma atividade vivida para uma prática performativa levanta, contudo, um conjunto de questões que exigem reflexão. O que acontece a uma prática quando deixa de responder às necessidades concretas do trabalho e passa a ser executada com a finalidade de representar um modo de vida? Num contexto de trabalho, os gestos do sargaceiro eram determinados pelas condições do mar, pelos instrumentos, pela necessidade económica, pelo esforço físico e por conhecimentos adquiridos através da experiência. Quando esses mesmos gestos são deslocados para uma atuação pública, passam necessariamente por um processo de seleção, recomposição e, muitas vezes, invenção. As músicas são acompanhadas por instrumentos que nem sempre faziam parte das práticas originais, as danças são estilizadas para se adaptarem à apresentação pública e a própria aparência dos participantes é cuidadosamente construída: os cabelos são penteados e os rostos podem ser maquilhados, uma questão que, aliás, suscita debates intensos no seio dos próprios grupos. A dimensão estetizante, como observou a antropóloga Vera Marques Alves a propósito da política folclorista do Estado Novo, tende assim a sobrepor-se às condições concretas de trabalho e vida das classes representadas. Alguns elementos são preservados, outros esquecidos ou simplificados, e outros ainda ganham uma centralidade que não possuíam originalmente.
Isto não significa que as memórias preservadas pelos grupos folclóricos sejam falsas ou desprovidas de valor. Pelo contrário, muitos destes grupos constituem importantes arquivos vivos de conhecimentos locais, reunindo pessoas que participaram diretamente nessas atividades ou que aprenderam com familiares e membros mais velhos da comunidade. Permitem conservar vocabulários, objetos, técnicas, histórias e formas de vestir que dificilmente encontrariam outros espaços de transmissão. Mas há que lembrar, como advogam os estudos antropólogos mais recentes, que qualquer representação do passado se baseia em processos complexos de seleção. Ao transformar uma experiência vivida num repertório passível de ser apresentado perante um público, os grupos constroem inevitavelmente uma interpretação encenada da vida sargaceira.


↑ COREOGRAFIA INTERMAREAL I
↑ COREOGRAFIA INTERMAREAL II
↑ COREOGRAFIA INTERMAREAL III
↑ COREOGRAFIA INTERMAREAL IV
Nessa transformação podem também perder-se algumas das dimensões menos celebratórias dessa experiência. A dureza física do trabalho, a pobreza, as desigualdades sociais, os acidentes ou a necessidade económica que levava muitas famílias ao sargaço são mais difíceis de traduzir numa apresentação folclórica do que um traje, uma dança ou um conjunto de instrumentos. O passado pode, assim, adquirir uma dimensão estética que não possuía necessariamente enquanto experiência quotidiana. A memória transmitida pelos grupos folclóricos oscila, portanto, entre a preservação e a reinvenção, na medida em que os grupos são moldados por uma finalidade muito concreta: a sua apresentação pública sob a forma de espetáculo, concebido para ser visto e apreciado.

«Nos grupos folclóricos, (...) quando é trajes de trabalho está tudo muito bem ourado, esteticamente bem conseguido porque foi necessário tornar aquilo mais bonito, para espectáculo. Há muito essa romantização, sem dúvida.»
CÂNDIDO TORRES • PRESIDENTE DO GECN • Nasc. 1993
Castelo do Neiva
É precisamente nesta tensão que reside parte do seu interesse. Mais do que perguntar se estas representações reproduzem fielmente o passado, importa perceber que passado escolhem representar, através de que elementos e com que significado no presente. Os grupos folclóricos não são apenas depositários de uma tradição anterior: são também agentes contemporâneos na construção da memória das comunidades. Ao selecionarem determinados trajes, objetos, gestos e narrativas, participam ativamente na definição daquilo que, hoje, é reconhecido como património sargaceiro.
A própria história destes grupos merece, por isso, ser integrada nos processos de patrimonialização do sargaço. Para uma geração mais jovem, os seus conhecimentos sobre a apanha do sargaço devem mais aos grupos folclóricos do que ao passado “tal como ele foi”. Em Viana do Castelo, o caso de Castelo do Neiva parece particularmente significativo, pela importância considerável que os grupos têm dado à apresentação do traje sargaceiro nas suas atuações públicas. Desta forma, é possível afirmar que o GECN — Grupo Etnográfico de Castelo do Neiva e o GRECANE — Grupo Recreativo e Cultural de Castelo do Neiva desempenham um papel fundamental na disseminação das culturas sargaceiras nos dias de hoje, ainda que, é preciso frisar, não se encare a apresentação pública como a representação de um passado autêntico, falácia tantas vezes presente nos discursos dos próprios integrantes dos grupos.
Como já observava Lowenthal, o passado é um país estrangeiro, mas é também um lugar que é possível abordar e revisitar, construindo a partir dele uma certa ideia de continuidade histórica que, ainda que parcial, seletiva ou mesmo ilusória, pode oferecer orientação e alento para o presente e o futuro.

— OS DESCENDENTES DANÇAM —
Dançar é relacionar-se com o passado e com aqueles que vieram antes de nós. A tribo comunicava através do corpo em movimento, do bater do pé, do rodar, da repetição do gesto, procurando uma ligação com os que já haviam partido. O corpo ressoa antes da palavra. Exprime coisas que a linguagem não consegue dizer inteiramente. Talvez por isso a dança tenha sido, desde sempre, matéria de catarse.
Nos grupos folclóricos, a dureza do trabalho sargaceiro é amenizada. Desaparece por detrás da dança, do ritmo, da cor, do traje. A memória deixa de ferir e passa a poder ser contemplada. Transforma-se em orgulho, identidade e pertença. A dança não apaga o que foi. Dá-lhe somente outro corpo. Um corpo coletivo.
Ver um rancho dançar não é assistir apenas à representação de uma tradição, é ver também uma comunidade a conversar com os seus mortos.
