TEXTO POR MARIA MANUELA RESTIVO
FOTOGRAFIA E VÍDEO POR A RECOLETORA
01.10.2026
COM A PARTICIPAÇÃO DO
GECN - GRUPO ETNOGRÁFICO DE CASTELO DO NEIVA ↗︎

↑ BRANQUETA MASCULINA E FEMININA
Fotografias por XXXX. Digitalização da página 122, do livro "Actividades Agro-Marítimas em Portugal", 1990.
Na maior parte do litoral norte, não existia um traje específico para a apanha do sargaço. A atividade era geralmente realizada com roupa muito usada, já sem préstimo para outras ocasiões, “que nem em casa se andava com ela” ¹.
Em certas localidades, sobretudo entre o rio Lima e a Apúlia, desenvolveu-se, contudo, uma indumentária própria para esta faina: a branqueta. O nome deriva do tecido utilizado, o burel branco — um tecido tradicional português espesso e pisoado, feito de 100% lã, na cor natural, com textura semelhante ao feltro — que era fornecido pela indústria de lanifícios da zona da Serra da Estrela.
O traje foi identificado e descrito por Baldaque da Silva em finais do século XIX, mantendo uma forma relativamente estável até ao desaparecimento progressivo da apanha do sargaço, em décadas mais recentes. Isto indica que a sua utilização já estaria generalizada no século XIX, embora se desconheça quando e como terá originado.
Estudos recentes sugerem uma possível relação entre a branqueta e formas antigas de traje, nomeadamente de inspiração romana, embora essa hipótese careça ainda de comprovação. Álvaro Campelo, antropólogo que tem estudado a cultura sargaceira no norte de Portugal, acredita que esta hipótese deve mais ao mito do que ao facto histórico. Não deixa de ser curioso, porém, encontrarmos este discurso entre muitos dos antigos sargaceiros e das pessoas dos grupos folclóricos e etnográficos. Afinal, atribuir raízes ancestrais a uma prática é também uma forma de lhe conferir valor no presente.

¹ Memórias de um povo. Hermenegildo Viana. Viana do Castelo: Viana Festas, 2024.
«Há uma cultura aqui de associar o traje da branqueta do sargaceiro a uma origem romana. (...) Porque não navegar e viver nessa invenção?»
ÁLVARO CAMPELO • ANTROPÓLOGO • Nasc. 1962
Apúlia
Mais do que uma origem claramente identificável, importa compreender a branqueta como uma indumentária de trabalho moldada pelas exigências concretas da faina do sargaço: a permanência prolongada na água, a necessidade de mobilidade e a exposição constante ao frio e ao mar.
Não é por acaso que o traje era feito de burel. Este tecido reúne qualidades particularmente adequadas ao traje sargaceiro: era resistente ao desgaste, protegia do vento e tinha um caráter impermeável, adquirido no pisão, onde o tecido de lã era batido com água quente até encolher e se tornar denso e compacto. A sua capacidade de regular a temperatura do corpo explica também o uso de coletes e casacos de burel pelos pastores alentejanos, mesmo em pleno verão. Encontramos uma afinidade sugestiva entre a feitura do tecido e a atividade sargaceira: a água e a força que davam forma ao burel preparavam-no para proteger o corpo do sargaceiro do embate das ondas.

↑ BRANQUETA MASCULINA E SUESTE
Sargaceiro em terra. Crupo Etnográfico de Castelo do Neiva.
2026, Castelo do Neiva

↑
Jangadeiro no mar. Crupo Etnográfico de Castelo do Neiva.
2026, Castelo do Neiva
A branqueta masculina era composta por uma única peça: um casaco comprido, até meio da coxa, justo no tronco, cingido à cintura por um cinto de couro ou por cordas (provavelmente num tempo mais recuado) e alargado em pregas na parte inferior, permitindo liberdade de movimentos.
Em Castelo do Neiva, o traje feminino era semelhante, mas incluía duas peças de burel: uma jaqueta e uma saia curta e rodada, presa nas ancas por um cordão. Noutras regiões, como na Apúlia, onde as mulheres raramente entravam na água, muitas vezes usavam apenas a saia de burel, combinando-a com as blusas e os coletes que habitualmente vestiam no trabalho agrícola. Entre as ex-sargaceiras e os grupos folclóricos, a designação não é consensual. Há quem considere que a branqueta feminina corresponde às duas peças, enquanto outras chamam branqueta apenas à parte de cima. Céu Costa, por exemplo, conta-nos que a sua mãe chamava ao conjunto das duas peças 'roupa do mar'.
Quer a branqueta masculina quer a feminina tinham um desenho simples e despojado, sem gola, sendo abotoadas à frente com botões. A zona superior das costas e do peito era reforçada com uma segunda camada de burel, tornando a peça mais quente e resistente nessas áreas.
Na descrição de Baldaque da Silva, tanto homens como mulheres usavam chapéu de abas largas ou “um carapuço de lã e borla”. Porém, aquando da pesquisa realizada por Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira, o chapéu masculino tinha já sido substituído pelo sueste — chapéu de abas compridas, comum entre os pescadores — o que estes autores associam a um contacto mais próximo com as comunidades piscatórias. Em Castelo do Neiva, o sueste era feito de pano cru, impermeabilizado com óleo de linhaça, à semelhança do que acontecia com as velas das embarcações. O óleo impedia que o tecido absorvesse a água, do mar ou da chuva, uma característica particularmente importante num objeto destinado a proteger o corpo das condições marítimas.



↑ BRANQUETA FEMININA (COMPOSTA POR SAIA E JAQUETA) E SUESTE
2026. Foz do Rio Cávado, Esposende
Na entrevista realizada a Manuel Baeta, de Castelo do Neiva, antigo jangadeiro e construtor de jangadas, este refere que o uso da branqueta era comum entre a maioria dos sargaceiros da zona, sendo geralmente encomendada a um alfaiate. Procurámos perceber até que ponto o traje era eficaz para a apanha do sargaço, mas as fontes apresentam perspetivas distintas. Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira descrevem-no como “um traje excecionalmente bem concebido”; Manuel Baeta, a par de outros sargaceiros que tiveram oportunidade de usar o traje, sublinharam o peso que o tecido adquiria quando molhado. Porém, consideram que se trata de um traje particularmente adequado à apanha, que permitia proteger o corpo do frio e da água, ao mesmo tempo que deixava as pernas livres para a locomoção entre o mar e o areal. A sargaceira Emília Pita recorda, porém, que a branqueta só era usada por quem a podia a comprar. Os restantes recorriam à roupa mais velha de que dispunham, que pouco os protegia do frio e que deixavam, muitas vezes, secar no próprio corpo.
«Não tinha dinheiro para ela (branqueta). Levava a roupa que tinha mais velha»
EMÍLIA PITA • EX-SARGACEIRA • Nasc. 1948
Amorosa
«Estes tecidos, já na altura, não eram acessíveis a toda a gente.»
ANABELA ARANTES • MEMBRO DO GECN • Nasc. 19XX
Castelo do Neiva
Tanto o traje masculino como o feminino eram usados diretamente sobre o corpo, sem outras peças por baixo. Esta opção prendia-se com razões práticas: em contacto prolongado com a pele, a roupa molhada podia provocar maceração e desconforto, dificultando a faina. Inscrevia-se também num contexto em que o uso de roupa interior ainda não se tinha generalizado a todas as pessoas.
Esta forma de usar o traje sem roupa interior parece ter suscitado alguns episódios caricatos. Algumas fontes escritas referem acusações de ofensa à moral pública dirigidas a sargaceiros e sargaceiras, precisamente porque certos movimentos podiam expor partes íntimas do corpo. As suspeitas de licenciosidade estendiam-se também às situações em que se usava roupa comum, já que a necessidade de trocar de roupa na praia criava, segundo algumas pessoas com quem conversámos, ocasiões em que certos homens se colocavam em posições estratégicas para tentar observar as sargaceiras a trocar de roupa, procurando vislumbrar partes do corpo normalmente interditas. Estes testemunhos, partilhados num certo tom jocoso, são reveladores da dimensão quotidiana da apanha do sargaço, enquanto atividade que extravasa uma dimensão estritamente prática mas que se estende a formas de partilha e sociabilidade.
«A minha mãe muitas vezes foi ao argaço e nem cuecas tinha!»
MANUEL VICENTE • EX-SARGACEIRO • Nasc. 1948
Carreço
«Já mais crescidos, esperávamos a ocasião para elas mudarem de roupa. Só que os estupores deram por ela e o que é que faziam? Tinham a saia molhada (...) pegavam na seca, pumba pela cabeça, apertavam à cinta e depois tiravam a outra!»
MANUEL VICENTE • EX-SARGACEIRO • Nasc. 1948
Carreço
«Elas tinham uma forma de mudar de roupa. Antes de tirar a que tinham vestida já a outra ía a caminho. Elas sabiam... Mas havia sempre uma distração!»
MANUEL BAETA • EX-JANGADEIRO • Nasc. 1950
Moldes
«Eu com a jangada, a puxar o sargaço enfiei o pau na branqueta. E aquilo molhado é mole. Rasguei aquilo e fiquei descomposto completamente. Eu tinha vergonha de voltar para a praia. Não havia composição!»
MANUEL BAETA • EX-JANGADEIRO • Nasc. 1950
Moldes
Ao longo do século XX, a branqueta ficou intimamente associada a duas localidades: Castelo do Neiva e Apúlia. Para essa associação terá contribuído o movimento folclórico, que selecionou determinadas práticas e objetos das culturas locais, transformando-os em emblemas para serem apresentados em certames públicos. Neste processo, um traje concebido para o trabalho no mar passou também a representar uma comunidade e a distingui-la de outras. A sua presença em palco dá visibilidade à cultura sargaceira, mas implica igualmente uma mudança de contexto: a roupa que protegia o corpo durante a faina torna-se um elemento através do qual se apresenta e celebra o passado.
Segundo Cândido Torres, presidente da direção do Grupo Etnográfico de Castelo do Neiva, nos últimos anos o grupo tem dado maior destaque à branqueta nos espetáculos realizados, quer em Portugal quer no estrangeiro, precisamente por considerar que este traje identifica e distingue a região. Contudo, esse reconhecimento não apaga as memórias difíceis que lhe estão associadas. Como também refere Cândido, entre as pessoas mais velhas do grupo, a branqueta evoca o esforço e o sofrimento de uma vida marcada pela dureza do trabalho. O traje condensa, assim, a ambiguidade dos usos do passado: a memória das dificuldades vividas coexiste com o orgulho de ver esse passado publicamente valorizado. Promover o traje nos dias de hoje pode ser também uma forma de reconhecer e celebrar aqueles que o vestiram.

«As pessoas, conforme iam abandonando o trabalho da apanha do sargaço, queimavam as roupas.»
CÂNDIDO TORRES • PREDSIDENTE DO GECN • Nasc. 1993
Castelo do Neiva

