TEXTO
Maria Manuela Restivo *
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DATA DE ENTRADA
06.2026
A apanha do sargaço apresentava variações significativas consoante as regiões, as características do mar, a configuração das rochas, as espécies das algas e a sua localização. Ainda assim, é possível distinguir duas formas fundamentais de recolha:
— a apanha feita a pé (a mais disseminada),
— a apanha realizada com recurso a embarcações.
A recolha a pé incidia sobretudo sobre as algas que os movimentos do mar lançavam para a praia ou que ficavam a boiar junto à costa. Por essa razão, o momento mais favorável para a apanha era a maré baixa, designada em algumas zonas do norte de Portugal por “os estos”. A agitação do mar, nomeadamente a ondulação forte e os temporais, desprendia as algas das rochas e dos fundos marinhos, trazendo-as para a costa, enquanto a maré vazia e calma permitia o acesso à praia, aos rochedos e às poças onde o sargaço se acumulava. Quem apanhava a pé podia também recolher algas presas ou depositadas em rochas acessíveis sem necessidade de embarcação, aproveitando os momentos em que o recuo do mar deixava a descoberto zonas habitualmente submersas.
Já o recurso a embarcações permitia alcançar algas situadas mais longe da praia ou em rochedos inacessíveis a partir da praia. Estas embarcações variavam de região para região, podendo tratar-se de barcos, masseiras ou jangadas. Em alguns casos, serviam para transportar as pessoas até determinados pontos de apanha, onde o trabalho era feito sobre as rochas ou nas imediações destas, regressando a terra quando a maré ou o estado do mar assim o exigiam. Na maioria das situações, a recolha era realizada diretamente a partir da própria embarcação, com instrumentos de cabo longo capazes de alcançar o fundo ou de trazer as algas até à superfície.
Tanto na apanha a pé como na apanha com embarcação, o trabalho era frequentemente realizado em pares ou em pequenos grupos. Esta dimensão colaborativa era importante não apenas pela dureza física da atividade, mas também pelos riscos associados ao mar, às marés, às rochas escorregadias e ao peso dos instrumentos e das algas molhadas. A tecnologia da apanha do sargaço não pode, por isso, ser pensada apenas como um conjunto de objetos, mas como uma relação entre ferramentas, corpos, marés, rochedos, embarcações e formas de cooperação.
As ferramentas da apanha do sargaço foram concebidas, genericamente, para desempenhar três ações fundamentais:
— arrancar,
— recolher,
— transportar.
No que diz respeito à primeira, ao processo de arrancar ou extrair, as ferramentas destinavam-se a desprender as algas ainda fixas às rochas (croque, foicinhão e engaceira). As ferramentas destinadas a recolher serviam para juntar ou arrastar o sargaço situado na areia ou que boiava junto à costa (rede e incinho). Por fim, existia um conjunto de ferramentas cuja função primeira era transportar o sargaço para os locais de secagem, armazenamento e venda (carrela e cesto), ou ainda para outros meios de transporte de maior capacidade. Certas ferramentas podiam acumular mais do que uma função.
Tratava-se, na sua maioria, de ferramentas simples, feitas com materiais locais e frequentemente produzidas ou adaptadas pelas próprias populações. Apesar das variações regionais nas denominações, muitas destas tecnologias apresentavam formas semelhantes ou aproximadas, revelando um conjunto de soluções práticas partilhadas, construídas a partir da experiência direta com o mar e com os materiais disponíveis.
Mais do que instrumentos rudimentares, estas tecnologias devem ser entendidas como formas de conhecimento incorporado. A sua eficácia dependia menos da sofisticação técnica das ferramentas e mais dos conhecimentos práticos acumulados, como a capacidade de ler as marés ou de identificar os bons lugares para recolher as algas.




* Este texto é baseado sobretudo nos livros Actividades agro-marítimas em Portugal, de Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira e Tradições Marítimas de Anha, de José da Cruz Lopes e Rui F. Viana, complementada com informação recolhida através de testemunhos orais realizados em 2026, no litoral entre Castelo do Neiva e Caminha.